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Elas na Cirurgia Bucomaxilofacial, os desafios da profissão enfrentados pelas mulheres | Colunista

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Elas na Cirurgia Bucomaxilofacial, os desafios da profissão enfrentados pelas mulheres | Colunista

Elas na Cirurgia Bucomaxilofacial, os desafios da profissão enfrentados pelas mulheres .jpg (70 KB)

A primeira mulher a realizar o curso de nível superior em Odontologia foi Lucy Beaman Hobbs, em 1866 no Ohio College of Denteal Surgery [1].

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Fonte: https://www.abro.org.br/dia-internacional-da-mulher-conheca-mulheres-pioneiras-na odontologia/

Ela foi o marco inicial que permitiu que as mulheres possam adentrar no curso de Odontologia, terem seu diploma e poderem exercer legalmente sua profissão como cirurgiãs-dentistas, porém desde cedo elas enfrentaram grandes obstáculos e preconceitos. Foi apenas na década de 70 que sua presença pode ser medida como dado estatístico relevante, sendo 1,2% em 1976 e 3% em 1982 [1].

No Brasil a presença feminina na profissão tem registros desde o final do Império, elas eram raras e exerciam a profissão de maneira subordinada, nos papeis de filhas, esposas e viúvas de dentistas. Temos como exemplo Maria Arthot, em 1848, que oferecia seus serviços de “tirar a dor de dente para sempre” no Jornal do Commercio, veículo impresso muito popular na época [2].

O século 19 foi marcado pela a entrada das mulheres no curso superior sem a necessidade se pertencerem a uma família de dentistas, mas também o rigor no processo de aprendizagem, na frequência e os altos valores das mensalidades fez com que a profissão elitizar-se [2].

Na década de 80, com o Conselho Federal de Odontologia (CFO), foi possível acompanhar o crescimento das mulheres na profissão, que em 1980 eram de 46,35% e em 1990 de 44,06%. Apenas nos anos 2000 o número de mulheres superou os de homens [1].

Com esse espaço conquistado a próxima etapa seria as especializações latos sensu e em especial a especialidade de Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofacial, que até hoje ainda é uma especialidade como maioria masculina.

Registros do CFO de 2000 mostram apenas 20 profissionais do gênero feminino atuando como Cirurgiãs BucomaxilofaciaL cerca de 1,24% do total [1].

Em 2020, segundo dados do sistema de cadastro do CFO a especialidade tinha registro de 1.429 mulheres atuantes na especialidade de Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofacial, cerca de 2,1% dos profissionais da especialidade [3].

 

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Fonte: http://website.cfo.org.br/estatisticas/quantidade-geral-de-cirurgioes-dentistas-especialistas/

Em uma pesquisa própria da autora do artigo, foram entrevistadas 12 mulheres cirurgiãs- dentistas através de um questionário enviado para seus perfis profissionais na rede social instagram, as perguntas foram formuladas visando uma breve análise dos possíveis perfis e desafios enfrentados por elas.

Tive como resultados as seguintes informações:

  • O estado onde elas têm registro profissional: 1 Bahia, 4 Ceará, 2 Distrito Federal, 1 Mato Grosso, 1 Piauí, 1 Rio Grande do Sul e 2 São Paulo;
  • 11 realizaram sua especializa em regime de residência e uma em formato lato sensu (normal);
  • Todas iniciaram sua carreira na área entre os 20 e 30 anos;
  • Quando perguntadas sobre o motivo que as levou a escolherem a especialidade 9 afirmaram que pelo gosto pelo ambiente e rotina hospitalar, seguido por 2 que escolheram que seria uma realização de um sonho de infância e uma que escolheu pelo bom desempenho nas cadeiras relacionadas a especialidade durante a graduação;
  • A maioria afirmou que realiza procedimentos eletivos e emergências em traumatologia a nível hospitalar, 7 e as 4 restantes afirmaram que só procedimentos eletivos;
  • Quando questionadas se já passaram algum tipo de assédio ou constrangimento por ser mulher e atuar como Cirurgiã Bucomaxilofacial, tivemos um empate entre as que sofrem assédios por outros profissionais de saúde e as que tiveram assédio por outros profissionais e pacientes em sua rotina de trabalho, 1 afirmou que apenas por pacientes e 1 que nunca percebeu isso em seu ambiente de trabalho;
  • Sobre o fato de que, por serem do sexo feminino e por escolherem essa especialidade se sofreram algum tipo de discriminação pelo mercado de trabalho, podendo ser a perda de oportunidade s de trabalho ou terem uma remuneração menor que as de seus colegas de trabalho que atuam na mesma especialidade, quase tivemos uma unanimidade que escolheu sim e apenas 1 que não;
  • Sobre a maternidade a maioria afirmou que não tem filhos, mas que se preocupam como vai conciliar a profissão com a maternidade, foram 8 entrevistadas e houve um empate entre as que não gostariam de ser mães e duas que são mães e que não tem problemas em conciliar a profissão como a rotina de mãe.


Por fim, pedi à elas que compartilhassem um conselho que dariam para uma estudante que gostaria de seguir na área de Cirurgia e Traumatologia Bucomaxiloacial, essas foram as mensagens:

“Tenha paciência e persistência”

“Vale a pena! É suado porém gratificante!”

“Lute pelos seus sonhos . Mas não via achando que irá ganhar rios de dinheiro ...”

“Não tenha medo do preconceito. Ele está na cirurgia e em tantos outros lugares. Seja respeitado pelo seu trabalho e não pelo seu gênero. Foco no objetivo. A cirurgia é para todos”

Vale lembrar que esse ano de 2020 está marcado o 1º Encontro Feminino de Cirurgiãs BucomaxiloFacial na cidade de Belém, ele acontecerá paralelamente ao XXV Congresso Brasileiro de Cirurgia e Traumatologia Buco-maxilo-facial.

Concluo o artigo afirmando que o real objetivo do trabalho é motivar as estudantes de graduação que desejam realizar a especialidade e que veem em seu caminho vários obstáculos, que muitas vezes foram impostos por uma sociedade com padrões arcaicos e preconceituosos. Sim a caminhada é longa, mesmo já atuando na especialidade, mas os frutos de seu trabalho e dedicação serão sua motivação para continuar lutando, sorrindo e tendo fé ainda na humanidade.

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Referências:

[1] JUAREZ, Nália Gurgel ; MOREIRA, R. W. F. ; MORAES, Márcio de . Mulheres na cirurgia buco-maxilo-facial no Brasil: motivos de escolha, dificuldades encontradas e características do exercício da especialidade.. RGO. Revista Gaúcha de Odontologia , v. 55, p. 13-18, 2007.

[2] MOTT, Maria Lucia et al. 'Moças e senhoras dentistas': formação, titulação e mercado de trabalho nas primeiras décadas da República. Hist. cienc. saude-Manguinhos [online]. 2008, vol.15, suppl., pp.97-116. ISSN 0104-5970.

[3] Conselho Federal de Odontologia – Quantidade Geral de Cirurgiões-Dentistas Especialistas – Brasília – DF, CFO 2020.

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