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A prática psicológica no setor de Oncologia | Colunista

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A prática psicológica no setor de Oncologia | Colunista

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A Psico-oncologia pode ser definida como uma área interdisciplinar que une conhecimentos advindos da Psicologia e da Oncologia visando identificar o impacto dos aspectos psicológicos no percurso do tratamento de pacientes oncológicos.

Na atuação com uma doença multicausal como o câncer, é necessário que haja a contribuição de diversas áreas e saberes para que a qualidade de vida do paciente seja garantida. Sendo assim, a partir da década de 1970, ao ficar evidente que fatores psicossociais influenciavam diretamente na incidência, evolução e remissão do câncer, a atuação dos psicólogos passou a ser requisitada pelos médicos oncologistas.

Um grande avanço para a área ocorreu em 1998 com a publicação da Portaria nº 3.535/GM do Ministério da Saúde. Esta tornou obrigatória a inclusão do psicólogo nas equipes dos centros de oncologia para atuar nas áreas:

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Atendimentos iniciais em Psicologia (BEZERRA et al., 2018)

Não existe um modelo fixo a ser seguido, haja vista que cada demanda apresentará suas próprias especificidades. Entretanto, a coleta de algumas informações é de suma importância para direcionar qual estratégia terapêutica atenderá melhor a cada caso.

1- Compreensão do quadro clínico do paciente:

Inicialmente é interessante que o psicólogo consulte o prontuário do paciente a fim de obter informações sociodemográficas (idade, escolaridade, endereço e estado civil) e aspectos clínicos (diagnóstico, histórico do paciente e tratamento). Esses dados serão importantes para que o psicólogo possa entender melhor sobre o contexto em que o paciente está inserido, bem como a gravidade do quadro clínico com o qual estará trabalhando.

2- Percurso, diagnóstico e adesão:

Nesse momento o paciente irá fornecer informações a respeito da descoberta da sua condição clínica: quais alterações serviram de alerta para que procurasse atendimento médico, quando e como ocorreu o diagnóstico e a quais exames ou tratamentos já foi submetido.

É importante que o psicólogo esteja atento aos intervalos entre os procedimentos anteriormente realizados para identificar qual o nível de adesão do paciente, se as ausências foram justificáveis ou mostram algum aspecto de resistência em lidar com a doença.

3- Enfrentamento:

Para identificar se o paciente possui um enfrentamento saudável e esperado diante da doença elementos como intensidade, frequência e duração das reações diante do diagnóstico devem ser abordados. Aqui podem ser identificadas quais estratégias o paciente tem utilizado para lidar com as angústias advindas após a descoberta da doença.

4- Nível de compreensão:

Dados que foram obtidos a partir do prontuário serão de suma importância nesse momento. Fatores como a idade e a escolaridade podem influenciar diretamente no nível de compreensão que o paciente terá acerca da sua condição atual. Os estigmas ainda existentes em relação ao câncer podem gerar medos e crenças irracionais. Dessa forma, é importante que o psicólogo atue como mediador na comunicação equipe-paciente, adequando a fala a realidade do indivíduo.

5- Tratamento:

O psicólogo deve identificar quais informações podem estar equivocadas em relação ao tratamento, quais processos geram mais ansiedade ou estresse no indivíduo ou se existem expectativas irreais em relação ao tratamento e seu resultado. Informações advindas dessa etapa podem indicar a necessidade de ser iniciado um processo de psicoeducação em conjunto com a equipe multiprofissional.

6- Reforçadores:

Em geral, os tratamentos para o câncer são de longa duração e devido a isso o paciente, muitas vezes, perde aspectos básicos ligados à sua rotina. É importante que o psicólogo esteja atento aos reforçadores primários (Ex: sono e alimentação), bem como identifique reforçadores secundários (Ex: assistir tv e jogar dama) que possam ser adaptados à realidade daquele paciente. Incluir esses aspectos em sua rotina, pode favorecer a adesão ao tratamento.

7- Rede de apoio:

É de suma importância identificar como é o funcionamento da rede de apoio do paciente: quais são as pessoas mais próximas, se há alguém que o acompanha em exames e consultas e como a família tem lidado com o diagnóstico. Essas informações servirão de base para identificar possíveis demandas emocionais existentes e que necessitem de um atendimento em grupo para que essas pessoas desenvolvam recursos saudáveis para o enfrentamento da doença do paciente.

Atuação do psicólogo na Psico-oncologia

A atuação pode ocorrer em instituições hospitalares, ambulatórios ou em domicílios e o profissional da área de Psico-oncologia estará envolvido em todos os processos relacionados a doença: prevenção, diagnóstico, tratamento, cura ou cuidados paliativos. Sendo assim, o objetivo principal é oferecer assistência ao paciente, familiares e a equipe de saúde. Segundo Kovács (2016), dentre as principais estratégias terapêuticas utilizadas, podemos destacar:

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A atuação do psicólogo para o suporte e apoio aos pacientes oncológicos é uma prática fundamental. Como apontado, o câncer é atravessado por fatores psicossociais que requerem uma prática interdisciplinar – o que torna indispensável a presença do profissional de Psicologia. Desde os atendimentos iniciais até a abordagem com os familiares o profissional deve se mostrar atuante para lidar com essa condição, propiciando formas de fornecer qualidade de vida ao paciente.

Matérias Relacionadas:

Referências

BEZERRA, T. L.; TAURISANO, A. A. A; PREBIANCHI, H. B. Psico-oncologia. In: BAPTISTA, M. N.; DIAS, R. R.; BAPTISTA, A. S. D. (Coord.). Psicologia Hospitalar: teorias, aplicações e casos clínicos. 3 ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2018, p. 39-50.

BRASIL. Ministério da Saúde. Gabinete do Ministro. Portaria nº 3.535, de 2 de setembro de 1998. Estabelece critérios para cadastramento de centros de atendimento em oncologia. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 3 de set. 1998.

CEZÁRIO, L. S.; RIBEIRO, J. F. S. A atuação do psicólogo hospitalar frente aos familiares do paciente com morte iminente. Revista Mosaico, v. 10, n. 2, p. 40-47, 2019.

DECAT, C. S.; ARAÚJO, T. C. C. F. Psico-oncologia: apontamentos sobre a evolução histórica de um campo interdisciplinar. Brasília Med, Brasília, v. 47, n. 1, p. 93-99, 2010.

FELIPPE, T. C. A.; CASTRO, P. F. Percepção sobre diagnóstico e tratamento em pacientes oncológicos. Revista Saúde, v. 9, n. 1-2, 2015.

KOVÁCS, M. J. (Psico)oncologia: definições, desafios e campos de atuação. In: KAMERS, M.; MARCON, H. H.; MORETTO, M. L. T. (Orgs.). Desafios atuais das práticas em hospitais e nas instituições de saúde. 1 ed. São Paulo: Escuta, 2016, p. 293-313.

VEIT, M. T.; CARVALHO, V. A. Psico-oncologia: um novo olhar para o câncer. O mundo da Saúde, São Paulo, v. 34, n. 4, p. 526-30, 2010.

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