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Tirando a casquinha: tipos de desbridamento de feridas | Colunista

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Sabe aquela casquinha de ferida que você queria tirar quando criança e sua mãe dizia: “não pode porque senão não vai sarar”?

Por um lado, ela estava errada, porque a casca é formada por tecido desvitalizado, que dificulta o processo de cicatrização. Por outro lado, se você removesse a casca e a ferida sangrasse (o que certamente aconteceria), o processo de cicatrização começaria todo do início novamente, o que impediria a cicatrização. Então sua mãe também estava certa.

Brincadeiras à parte, o fato é que precisamos remover os tecidos desvitalizados dos leitos das feridas, o que chamamos de desbridamento. Entretanto, não de qualquer maneira. Existem técnicas apropriadas e profissionais capacitados para isso.

O desbridamento faz parte do tratamento tópico para as feridas, além da limpeza e da escolha da cobertura adequada. É realizado para preparar a lesão para um processo de cicatrização adequado, facilita a visualização do leito da ferida e auxilia na eliminação de infecções.

Os tipos de desbridamento incluem:

  • Autolítico: ocorre por atuação de leucócitos e de enzimas endógenas que degradam o tecido desvitalizado de maneira seletiva, lenta e confortável. É facilitado com o uso de coberturas de curativo que proporcionam um meio úmido adequado, como por exemplo o hidrogel;
  • Mecânico: técnica que utiliza métodos de fricção para o desbridamento, como escovação, hidroterapia, irrigação e esfregaço com gaze. Não é seletivo, ou seja, além de atingir o tecido desvitalizado, pode atingir também os tecidos viáveis;
  • Enzimático (químico): são utilizadas enzimas comercialmente produzidas. De uso tópico. As principais são a colagenase e a papaína;
  • Biológico: são utilizadas larvas vivas de moscas que são produzidas em laboratório, utilizadas em necroses úmidas ou de liquefação.
  • Por instrumental cirúrgico: é realizado quando o comprometimento dos tecidos atinge grandes áreas com grau de erosão, fistulização e tunelização, ou que necessitem de remoção óssea, estejam próximas a órgãos vitais, possam provocar dor intensa, ou ainda em situações de imunossupressão, sepse, osteomielite ou outras complicações. Geralmente ocorre em sala cirúrgica por médico cirurgião, com uso de anestesia;
  • Por instrumental conservador: deve ser realizado por enfermeiros capacitados em ambulatório ou leito do paciente. Não deve transpor a fáscia muscular.

O tipo de desbridamento por instrumental conservador pode ser realizado por diferentes técnicas, que são:

  • Técnica de slice: posiciona-se a lâmina de bisturi ou agulha paralelamente aos tecidos para efetuar cortes sucessivos. É indicada tanto em necroses de coagulação quanto de liquefação;
  • Técnica de cover: descola-se as bordas da necrose de coagulação em direção ao centro da lesão, até que seja completamente solta;
  • Técnica de square: realiza-se pequenos cortes em formatos de quadrados no tecido necrótico para que substâncias desbridantes possam penetrar melhor no tecido, e posteriormente, remove-se a necrose.

Ainda, podem ser utilizadas associações de diferentes tipos e técnicas de desbridamento. Para a definição do melhor método de desbridamento, devem ser levados em consideração a quantidade de tecido desvitalizado, o tempo necessário para o desbridamento, o estado geral do paciente, a etiologia e características clínicas da lesão, a experiência do profissional e o local onde será realizado o procedimento.

Agora que você já sabe os tipos de desbridamento disponíveis, escolha com sabedoria qual o melhor método para o seu caso, avaliando todos os aspectos da lesão.

E lembre-se: a resolução do COFEN nº 567/2018 coloca como atribuição específica do enfermeiro a realização do desbridamento autolítico, instrumental, mecânico e enzimático.

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REFERÊNCIAS:

CAMPOS, M. G. C. A. et al. Feridas Complexas e Estomias: aspectos preventivos e manejo clínico. João Pessoa: Ideia, 2016.

CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM. Resolução nº 567/2018. Regulamenta a atuação da equipe de Enfermagem no cuidado aos pacientes com feridas. Diário Oficial da União: Brasília/DF, 2017.

MALAGUTTI, W.; KAKIHARA, C. T. Curativos, estomias e dermatologia: uma abordagem multiprofissional. 2ª ed. São Paulo: Martinari, 2011.

POTTER, P. A.; PERRY, A.G. Fundamentos de enfermagem. Tradução de Mayzan Ritomy Ide et al. 8ª ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2013.

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