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Câncer de boca: se você nunca viu um câncer, algum câncer já te viu!

Câncer de boca: se você nunca viu um câncer, algum câncer já te viu!

PALAVRAS-CHAVE:

Câncer de boca; diagnóstico de câncer; desordens potencialmente malignas.

É muito comum, no dia a dia do cirurgião-dentista, nos depararmos com lesões orais as quais ficamos na dúvida ou com incertezas quanto ao diagnóstico clínico. E quando essas lesões nos dão a suspeita de câncer, essa insegurança só aumenta.

Apesar dos avanços no tratamento, a taxa de sobrevida dos pacientes acometidos por câncer oral, ainda é de aproximadamente 50% em 5 anos, sendo que o prognóstico desses pacientes dependente do estágio clínico em que o tumor é diagnosticado.

Por insegurança muitos dentistas acabam encaminhando pacientes para a avaliação de lesões suspeitas de carcinoma, tanto na clínica particular quanto no âmbito do SUS, mas essa demora no diagnóstico influência muito no prognóstico do paciente.

Não podemos esquecer que o câncer é o crescimento desordenado das células, podendo invadir tecidos e órgãos vizinhos e disseminar para outros locais distantes no corpo, no processo denominado metástase. As células proliferam todos os dias!

Sempre que suspeitamos de alguma lesão é nossa responsabilidade escolher a conduta a ser tomada. Não é preciso ter medo de realizar a biópsia; se você faz exodontias, fazer biópsias será simples. Não precisa ter medo do resultado pois você deve confiar em si mesmo para fazer esse diagnóstico.

Ao realizarmos uma biópsia o que temos são hipóteses diagnósticas que só serão confirmadas, ou não, pelo exame histopatológico desse tecido e, tudo bem se a hipótese não for compatível com o resultado histopatológico! Ninguém acerta sempre e ninguém é detentor de todo conhecimento do mundo. Em se falando de câncer de boca, no entanto, é melhor pecarmos pelo excesso. Claro, sempre baseado em conhecimento científico. Na faculdade, eu tinha um professor que dizia “se você nunca viu um câncer algum câncer já te viu”, e isso é o que não pode acontecer!

É preciso também darmos atenção especial às desordens potencialmente malignas orais (DPMO), examinando atentamente durante o diagnóstico e monitoramento dessas lesões, atuando assim de forma preventiva, uma vez que não é possível predizer quais lesões sofrerão a transformação maligna. O cuidado com as DPMO pode impactar na redução das taxas de prevalência e, consequentemente, mortalidade relacionadas ao carcinoma espinocelular oral.

Quanto as DPMO mais comuns podemos listar 2 principais:

 

  • leucoplasia
  • queilite actinica

Na prática clínica, muitas vezes acabamos nos confundindo quanto ao diagnostico dessas lesões, mas isso pode ser facilmente revertido através de estudo e prática. Quanto mais casos você ver, mais fácil será o diagnóstico. Não é vergonha nenhuma ao ver uma lesão pedir com licença ao paciente e ir pesquisar no seu Neville.

Vamos falar um pouquinho sobre essas 2 DPMO mais comuns para relembrar suas principais características.

– Leucoplasia: é a lesão potencialmente maligna mais comum, caracterizada por placa ou mancha branca que não pode ser distinta clínica ou patologicamente como qualquer outra doença. A etiologia dessa lesão é multifatorial, sendo o fator de risco mais comumente associado o uso de tabaco além de outros fatores como consumo de álcool, infecções fúngicas, lesões sexualmente transmissíveis e infecções virais.

Clinicamente, as lesões leucoplásicas podem ser divididas em homogêneas, quando a lesão for uniformemente branca com a superfície plana ou ligeiramente rugosa, e em não homogêneas, quando a superfície da lesão for branca com áreas vermelhas (eritroleucoplasias) com a superfície plana, ou rugosa, sendo as não homogêneas aquelas consideradas com maior potencial de transformação maligna. Frente ao diagnóstico clínico de leucoplasia, a realização da biópsia e do exame histopatológico são mandatórios para identificar as alterações epiteliais e classificar o risco de desenvolvimento de neoplasia, pois através do exame anatomopatológico é
possível observar as alterações celulares que estão ocorrendo nesse tecido e com isso, também, determinar o acompanhamento do paciente.

– Queilite actinica: é a lesão potencialmente maligna causada pela excessiva e prolongada exposição aos raios ultravioleta, considerada uma desordem crônica inflamatória. Ocorre quase exclusivamente no lábio inferior de pessoas de pele clara, sendo mais comum em pacientes homens a partir de 40 anos com exposição solar de
forma crônica e ocupacional. A radiação solar pode provocar danos irreversíveis aos melanócitos e queratinócitos e, por ser menos protegido das radiações ultravioletas, devido ao seu epitélio mais fino com uma fina camada de ceratina e menor quantidade de melanina, o lábio é o local mais vulnerável para o surgimento dessas lesões. O fumo é relatado como um fator de risco para a transformação maligna, bem como sua associação com a exposição solar que resulta em efeito sinérgico.

As características clínicas da queilite actínica são variáveis e podem incluir alterações irreversíveis como atrofia do limite do vermelhão do lábio, e reversíveis como áreas eritematosas ou leucoplásicas, fissuras e erosões, secura e dor. A presença de ulcerações ou nódulos são indicativos de possível malignização e progressão para carcinoma espinocelular de lábio. No entanto, ainda não é possível prever quais casos de QA sofrerão uma transformação maligna, e o diagnóstico precoce e tratamento adequado são necessários.

O câncer de cavidade oral representa 3% dos casos de câncer do mundo e estima-se 15.190 novos casos no Brasil só em 2020. Alguns sinais e sintomas que podem ser identificados durante a avaliação oral inicial, potencializam as chances de sobrevivência do paciente e melhor prognóstico. Dessa forma, Organização Mundial da Saúde (OMS) estabeleceu o diagnóstico precoce e a prevenção do câncer de boca como seu objetivo principal, pois desempenha um papel fundamental no prognóstico dos pacientes e progressão da doença.

Portanto, como cirurgiões-dentistas, é nosso dever orientarmos os pacientes quanto aos fatores de risco para desenvolvimento de lesões malignas, além de sabermos reconhecer quaisquer desordens que possam estar ocorrendo e, principalmente, qual a conduta a ser tomada.

Que nunca nos esqueçamos do nosso juramento: TUDO FAREI PELA SAÚDE E PELA VIDA DAQUELES QUE ME FOREM CONFIADOS.”

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