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Câncer de cavidade oral: o que preciso saber?

Câncer de cavidade oral: o que preciso saber?

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Câncer é uma enfermidade que se caracteriza pelo crescimento anormal e desordenado de células, que se agrupam formando tumores, que podem invadir tecidos e órgãos. O câncer de boca, ou câncer de cavidade oral, de acordo com o Instituto Nacional do Câncer (INCA, 2019) é o que acomete lábios, gengivas, bochechas, céu da boca, glândulas salivares, língua e orofaringe. Não se enquadram nesta classificação os cânceres de pele.

A lesão mais comum em cavidade oral, evidenciando 90% dos casos, é o carcinoma de células escamosas, correspondendo a 90% dos casos. Este tipo de câncer possui vários níveis de diferenciação e propensão a metástases (HADZIC et al, 2017, CHAINANI-WU et al, 2015).

Porque é preciso se preocupar tanto com o câncer de boca?

Ainda, de acordo com o INCA (2019), o número de novos casos de câncer em cavidade oral para o período entre 2020 e 2022 poderá ser de 11.180 casos em homens e 4.010 casos em mulheres. Sendo que acontecerão 10,69 casos a cada 100 mil homens.

O diagnóstico do câncer é parte crucial na melhora da qualidade de vida das pessoas acometidas. Mercadante et al (2012) citam que apesar de vários avanços tecnológicos, a taxa de sobrevida dos pacientes portadores de câncer de boca está em torno de 5 anos após o diagnóstico.

O câncer limita o convívio social das pessoas, faz com que o indivíduo tenha muitos problemas em decorrência de seu tratamento, devido aos efeitos colaterais e adversos das medicações utilizadas.

Um fato importante a se levar em conta é a estimativa do INCA relativo ao consumo do tabaco, demonstrando que em 1989, 34,8% da população acima de 18 anos era fumante e em 2008, este percentual baixou para 18,5%. Apesar disso, há que se denotar o fato do aumento do consumo dos narguilés, em especial entre os
mais jovens. Dados também do INCA (2019) reportam que sessões de 20 a 80 minutos deste tipo de consumo, equivalem a exposição de toxinas relativos a 100 cigarros.

Quais os pacientes mais predisponentes a terem câncer de cavidade oral?

É necessário sempre que se realize uma anamnese contundente, buscando dados sobre todo o quadro de saúde e condições de vida do paciente. Isso toma certo tempo, mas é fator que jamais deverá ser negligenciado. Pacientes tabagistas, etilistas frequentes, com alimentação inadequada, com história familiar pregressa de câncer, obesos, pessoas que se expõem ao sol frequentemente e sem a devida proteção, infecção pelo Papiloma Vírus Humano (HPV), fatores relacionados à exposição ocupacional a agentes tóxicos, tem maior predileção para o desenvolvimento de câncer (INCA, 2019).

Como é o diagnóstico do câncer de boca?

Culturalmente, os pacientes só procuram por tratamento quando se deparam com dor e esse fator é preponderante no processo dedetecção precoce do câncer de boca, já que as formas mais tardias denotarão dor e as lesões estarão muito maiores. Lesões pequenas, normalmente podem ser removidas no próprio consultório odontológico e devem ser encaminhadas ao patologista para a obtenção do diagnóstico final.

O diagnóstico precoce do câncer apresenta prognóstico satisfatório e deve ser realizado por todo cirurgião-dentista, em todas as especialidades, já que as lesões inicialmente não são dolorosas ou evidentes para o paciente.

A avaliação inicial passa pela palpação e inspeção de face e cavidade oral, podendo também incluir exames de superfície de lesões suspeitas, utilizando-se por exemplo de citologia esfoliativa, na qual raspa-se com uma escova especial, a parte superficial da lesão e é então enviado para exame histopatológico. Tardiamente, o câncer de boca é diagnosticado por meio de biópsias, quando o paciente procura o cirurgião-dentista ou médico portando sensibilidade dolorosa, que se faz presente nos estágios mais avançados da doença.

O que devo observar?

Lesões suspeitas, ou qualquer alteração de cor, forma e textura que se notem em cavidade oral devem ser levadas em consideração. Presença de dentes fraturados, enfartamento ganglionar por exemplo, são preocupantes. Não existe evidência científica para a relação entre próteses mal adaptadas e o câncer de boca, porém, relação clínica é evidente, já que com próteses mal adaptadas o indivíduo tende a não se alimentar direito, e o atrito da prótese com a gengiva pode levar à formação de ulcerações que dificultam ainda mais a alimentação e a fala.

Quais lesões são estas?

Dentre as alterações que devem ser observadas, destacam-se: alterações de cor: eritroplasias (lesões de coloração avermelhada), leucoplasias (lesões de coloração esbranquiçada), nevo (lesões de coloração enegrecida) e a queilite actínica (quando não se observa diferenciação entre o vermelho do lábio e a pele do paciente). As alterações de forma e textura, podem se apresentar como: nódulos, verrucoides, cistos, granulosas.

É necessário realizar biópsia?

As alterações que forem observadas deverão ser tratadas. Inicialmente, recomenda-se a remoção do fator causal delas, eliminação do habito de fumar, diminuição do consumo de bebida alcoólica, melhores hábitos de higiene e alimentação, prática de atividade física. Lesões tratadas que não regridam após 14 dias, deverão ser biopsiadas.

Qualquer profissional pode realizar a biópsia?

No geral, médicos e cirurgiões-dentistas são aptos a realizar estes procedimentos. Quando não se tem habilidade técnica para a cirurgia, o ideal é o encaminhamento do paciente, o mais brevemente possível. O importante é que seja feita a biópsia e enviada para o diagnóstico com patologista.

Qual a melhor técnica para biópsia?

Dependerá de cada caso. A utilização do teste de Shedd (Calandro et al, 2011) visa orientar a realização da biópsia. Este teste se baseia na utilização de ácido acético e azul de toluidina, ambos a 1%. O teste é realizado da seguinte forma: inicialmente são eliminadas próteses móveis e então o paciente realiza bochecho com água por um minuto, a fim de eliminar quaisquer restos alimentares; então é passado no local com um cotonete o ácido acético a 1% por um minuto; aplicação do azul de toluidina 1% por um minuto; novo bochecho com água por um minuto, a fim de eliminar os resquícios de ácido e azul de toluidina. Desta forma, demonstrará ao cirurgião onde precisa ser biopsiado, deixando-se tecido sadio no espécime.

Quais os cuidados que preciso ter com a peça removida?

A peça deverá ser acondicionada em frasco estéril, com tampa, com formol a 10%, sendo que aproximadamente 10 vezes o volume da peça deverá ser o volume do formol. Neste pote, deverá constar o nome completo do paciente, sua idade e também local, data e hora da remoção. O tempo para o patologista receber esta peça deverá ser inferior a 10 dias, pois o espécime pode sofrer degradação.

O que o patologista precisa saber?

Lembrando sempre, que o patologista ao receber o espécime não está observando o paciente, e sim a descrição feita da peça, de onde ela foi removida e se foi removida em sua totalidade (biópsia excisional) ou parte dela (biópsia excisional). O patologista precisa saber os dados clínicos do paciente, como idade, sexo, presença de
hábitos deletérios como tabagismo e etilismo, além de dados clínicos e radiográficos, quando necessários. Estes dados são importantes para que o patologista possa descartar hipóteses de diagnóstico e chegar ao diagnóstico definitivo.

E quanto ao resultado?

Após receber o resultado, existe forte tendência ao abandono do paciente por muitos profissionais, mesmo nos casos de lesões benignas. Mas o paciente precisa ser assistido, no geral, solicitado seu retorno a cada 6 meses para novas avaliações e certeza da eliminação dos hábitos deletérios. Mesmo quando o paciente for encaminhado ao médico oncologista, por se tratar de lesão maligna ou com tendência à malignidade, é fundamental o cirurgião-dentista avaliar com frequência o paciente, a fim de eliminar fatores predisponentes ao câncer.

Portanto, o profissional não deve se abster de examinar todos os pacientes, observando diferenças significativas com relação a cor, forma e textura, seguir com boa orientação a todos os pacientes quanto à eliminação ou minimização de fatores de risco, assim como o tratamento adequado das lesões. Ao observar as lesões que não tenham demonstrado melhora com o tempo estimado de 14 dias, é recomendada a realização de biópsia ou
encaminhamento para a mesma a outro profissional, quando não se possuir capacidade técnica para fazê-lo.

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Referências:

Calandro, T. L. S. et al. Utilização do teste com o azul de toluidina como método auxiliar no diagnóstico de lesões orais. Rev Bras Odontol. 2011;68(2):196-199.

Chainanni-Wu, N. et al. Toluidine blue aids in detection of dysplasia and carcinoma in suspicious oral lesions. Oral Dis. 2015; 21(7):879- 85.

Da Fonte DCB, Siqueira R, Lisboa JFL, Perez DEC, Carvalho EJA. Padrão das biópsias e fichas de solicitação de exame histopatológico encaminhados para o laboratório de patologia oral da universidade federal de Pernambuco. Odontol Clín Cient. 2015;14(1):575-578

Hadzic, S. et al. Importance of early detection of potentially malignant lesions in the prevention of oral cancer. Mater Sociomed.2017;29(2):129-133.

Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva. Estimativa 2020: incidência de câncer no Brasil / Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva. – Rio de Janeiro: INCA, 2019.

Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva. Narguilé: o que sabemos? / Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva. – Rio de Janeiro: INCA, 2019.

Mercadante, V. Padermi, V., Campisi, G. Novel non-invasive adjunctive techniques for early oral câncer diagnosis and oral lesions examination. Current Pharmac Design.2012;18:5442-51.

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