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Cirurgia oral em consultório particular: Até onde o recém-formado pode ir?

Cirurgia oral em consultório particular: Até onde o recém-formado pode ir?

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Após os 5 anos preconizados para se graduar em odontologia no Brasil, o cirurgião-dentista recém-formado se depara com um mercado de trabalho amplo, mas congestionado. Alguns meios de trabalho são mais comuns e atrativos ao profissional como: possibilidade de continuar no ambiente acadêmico por meio do mestrado acadêmico, atuação no setor público (unidades de saúde da Família, centros de especialidades odontológicas e afins) e atuação no setor particular, tanto em gestão comercial de consultórios e/ou atendimento clínico.

Aos profissionais que optam pelo atendimento clínico, seja ele particular ou público: existe um “choque de realidade” característico nas primeiras semanas de trabalho. A depender de onde o profissional se insere, cirurgias orais sem campo estéril e luvas cirúrgicas, restaurações dentárias sem isolamento absoluto e alguns procedimentos divergentes dos protocolos da faculdade podem surgir para o recém-formado, cabendo ao mesmo decidir se irá submeter-se a ambientes de trabalho como os supracitados.

Ademais, o objetivo do presente artigo é comentar sobre os procedimentos cirúrgicos – além das exodontias de rotina – que o cirurgião-dentista recém-formado pode se deparar, utilizando alguns casos realizados pelo autor.

Exodontia de dentes inclusos

No que diz respeito aos atendimentos durante à faculdade, a capacidade de realizar exodontias de “17 a 47” é obrigatória na grade curricular das faculdades brasileiras, porém em algumas instituições há relatos em que a exodontia dos terceiros molares erupcionados, alguns dentes supranumerários inclusos ou em posições ectópicas podem fazer parte de atendimentos a parte, vinculados a projetos de extensão ou estágios extracurriculares (Fig.1).

Um dos principais motivos de consultas odontológicas particulares consiste na avaliação dos terceiros molares, tanto por queixas álgicas relacionadas a pericoronarites, cáries dentárias e para início de tratamentos ortodônticos¹ , ². Caso o recém-formado esteja disposto a ter um bom fluxo de cirurgias,
é interessante que tenha participado de extensões relacionadas a cirurgia buco-maxilo-facial durante a graduação e tenha sua educação continuada em cursos de aperfeiçoamento/ residência para garantir um atendimento de excelência.

É importante ressaltar que o recém-formado deve operar quando tem consciência de que não irá causar mais morbidades do que benefícios ao paciente, não sendo motivo de constrangimento encaminhar estes casos para especialistas e, caso deseje aprender, acompanhar os procedimentos ou auxiliá-los quando possível.

Frenectomias linguais e labiais

Sob indicações relacionadas a anquiloglossia³ – promovendo disfonia e disfagia – a frenectomia lingual está no âmbito de atuação do cirurgião-dentista. Interessante ressaltar a importância do fonoaudiólogo no diagnóstico, tratamento e reabilitação fonética pós-cirurgia, sendo uma interdisciplinaridade essencial ao sucesso de casos como este¹ , ².

Com maior atuação da pediatria brasileira, em geral, a anquiloglossia está sendo tratada com mais ênfase tanto em ambiente hospitalar – com diagnóstico precoce como o “teste da linguinha” – como em projetos de extensão universitários que atuam no rastreamento e tratamento da anquiloglossia. Já a frenectomia labial possuem indicações relacionadas a espaços interdentais ampliados (diastemas), adequação pré-protética em rebordos reabsorvidos ou em reabsorção e em recessões gengivais inferiores.

A frenectomia labial mais incidente ao cirurgião-dentista está indicada nos
diastemas, quando o freio labial invade o espaço interdentário dos incisivos centrais
superiores, o qual pode causar incômodo estético ao paciente e impossibilita o
ortodontista de reduzir esse espaço, sendo esse o motivo mais comum de atendimento
em consultório. Ambos procedimentos são de fácil execução em mãos treinadas,
podendo ser realizada durante a graduação e em cursos de aperfeiçoamento. (Fig. 2 e 3)

Excisão de lesões e biópsias

Apesar de alguns colegas acreditarem que é a área menos comum de atuação em consultório, o recém-formado tem atuação importante no diagnóstico e tratamento de lesões orais e maxilofacias. Dificilmente o jovem cirurgião-dentista irá se deparar com um ceratocisto odontogênico ou outra lesão de maior agressividade constantemente, mas o conhecimento das características clínicas e interpretação imaginológica são necessários para o mesmo poder referenciar o paciente corretamente.

Lesões clinicamente diagnosticáveis como hiperplasias fibrosas inflamatórias – associadas a próteses desadaptadas -, fibromas traumáticos e mucoceles fazem parte das intervenções que podem ser submetidas em ambulatório (Fig. 3). Para confirmação de diagnóstico, é recomendado que seja realizada a remoção de lesões – por biópsias excisionais – enviadas para exames histopatológicos.

Lesões pigmentadas, de forma irregular, sangrantes à manipulação, com tempo de evolução rápido ou que possam ser associadas a alguma lesão maligna deve ser submetida apenas a biópsia incisional e igualmente enviadas a análise histopatológica ou encaminhadas a um estomatologista³.

Comunicações bucossinusais

Dentre as complicações que podem acometer o cirurgião-dentista, a comunicação bucossinusal (CBS) é uma das que mais assusta o profissional (principalmente o recém- formado) por diversos fatores: medo de explicar ao paciente que provavelmente não será possível completar a extração, inexperiência clínica relacionada a execução de acesso ao seio maxilar e a dúvida se realmente houve a comunicação ou não, havendo o risco da CBS se tornar uma inflamação crônica e assumir o aspecto de fístula bucossinusal, quadro clínico ainda mais doloroso ao paciente.

Pelo grande número de extrações de molares e pré-molares superiores, o cirurgião-dentista que opta por realizar exodontias pode já ter causado uma CBS e nem ter conhecimento desse fato. Apesar de associarmos toda CBS a uma grande cirurgia com manipulação do corpo adiposo bucal e confecção de retalhos mais complexos, alguns livros de referência em cirurgia oral 1,2 , 4 . recomendam que, em comunicações menores que 2mm, apenas a sutura oclusiva possa solucionar esse acidente.

Já em comunicações um pouco mais extensas – entre 2 e 6mm – pode ser necessário o uso de suturas oclusivas/ estabilizadoras de coágulo ( Sutura em “X” ou em 8”), com resultados melhores com a associação de esponjas hemostáticas e reabsorvíveis, sendo única desvantagem o custo para aquisição – novamente, dependendo do serviço em que o profissional está inserido.

Em comunicações mais extensas – > 6mm- com defeitos extensos, a confecção de retalhos + corpo adiposo bucal (Fig. 5 e 6) é o manejo mais indicado para resolução. Infelizmente, a última conduta não é um procedimento comum de ser realizado durante a graduação, sendo visto de maneira mais abrangente em programas de residência/ especialização em CTBMF.

Então, cirurgião-dentista recém-formado (também me enquadro neste grupo) caso tenha experiência e prática prévia com os procedimentos acima, você pode sim resolver casos como estes. Porém deve lembrar que não estará mais com o professor da disciplina por perto e deverá assumir as responsabilidades éticas e profissionais de executar qualquer procedimento cirúrgico, desde a remoção de uma raiz residual à manipulação da bola de Bichat para tratamento de CBS.

Todo procedimento cirúrgico só deve ser executado se o profissional, jovem ou experiente, avaliar que promoverá mais benefícios do que morbidades ao paciente, incluindo o uso de técnicas menos invasivas, com menor indução de trauma e visando a resolução da dor/incômodo do paciente e não a vangloriação de seus atos.

Agradeço, imensamente, aos professores da faculdade de odontologia da Universidade Federal do Ceará campus Sobral, especificamente os professores de CTBMF Marcelo Ferraro, Rodrygo Tavares, Samuel Carvalho, aos profs. de Radiologia/Estomatologia Marcelo Sampieri e Filipe Nobre. Aos profs. de CTBMF Breno Benevides, Adjair Jairo e Rodrigo Lemos de outras instituições e à Liga de Anatomia e Traumatologia Buco-Maxilo-Facial de Sobral (LATIUM – UFC) que tornaram a minha recente graduação proveitosa e despertaram o interesse para continuar na área de CTBMF.

 

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Fonte: Arquivo pessoal

Fig. 1: Radiografia panorâmica evidenciando 3os molares inferiores e dentes inclusos a serem removidos (indicação ortodôntica). Dentes removidos da imagem: Dente 38, 48, molares inferiores supranumerários esquerdo e direito, molares superiores supranumerários direitos e pré- molar superior esquerdo supranumerário (entre 24/25).

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Fig. 2: (A) Aspecto clínico inicial (B) Sutura no pós-operatório imediato após remoção de freio lingual.
Fig.3: (A) Aspecto clínico inicial (B) 15 dias de acompanhamento pós-operatório após remoção de freio labial superior.

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Fig. 3: (A) Aspecto clínico inicial (B) Sutura no pós-operatório imediato após biópsia excisional de fibroma traumático.

 

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Fig. 5: (A) Uso do retalho vestibular para tratamento de comunicação bucossinusal pós-exodontia do dente 17 com aspecto pós-operatório imediato (B) 15 dias de acompanhamento pós-operatório;
Fig. 6: (A) Uso da bola de Bichat para tratamento de comunicação bucossinusal pós-exodontia do dente 25 com aspecto transoperatório (B) 15 dias de acompanhamento pós-operatório.
 


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Referências:

1. MILORO, M et al. Princípios de cirurgia bucomaxilofacial de Peterson. 3. ed. São Paulo: Santos Editora, 2016.

2. HUPP, JR; TUCKER, MR; ELLIS, E. Cirurgia oral e maxilofacial contemporânea. 6. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2015.

3.  NEVILLE, BW. Patologia oral & maxilofacial. 3. ed. Rio de Janeiro : Guanabara Koogan, 2009.

4. TEIXEIRA, LM; REHER, VGS. Anatomia aplicada à Odontologia. Ed. Guanabara. Koogan S. A., Rio de Janeiro, 2001

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