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Todos iguais em suas diferenças: lidando com o Transtorno do Espectro Autista.

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O cotidiano do atendimento odontológico (ou quaisquer áreas relacionadas à saúde) abrange um conjunto de pessoas e suas respectivas individualidades. Dentre estas, está o Transtorno do Espectro Autista (TEA)


O TEA se trata de um transtorno idiopático, ou seja, sem etiologia conhecida pela ciência e que possui impacto variável em diversas áreas do desenvolvimento como a social, comunicativa e comportamental. 


O transtorno se manifesta de forma muito distinta entre os próprios autistas, desde as mais intensas como retardo mental às mais brandas como a Síndrome de Asperger. Tamanha distinção pode caracterizar um indício de multicausalidade;


Seu diagnóstico é usualmente realizado através da observação comportamental da criança, onde são analisados presença ou ausência de deficiência intelectual e comprometimento de linguagem; associação com outras condições médicas, genéticas ou com outra desordem do desenvolvimento, mental ou comportamental. Existem também inquéritos semi-estruturados direcionados ao diagnóstico de TEA.


São algumas características comuns nestes pacientes:

  • Dificuldade com a fala e comunicação não-verbal: repetição de palavras, inversão de pronomes, atraso na linguagem;
  • Não estabelecimento de contato visual direto;
  • Alterações comportamentais como automutilação e agressão;
  • Apego a rotinas;
  • Preocupação com partes de objetos inanimados;
  • Comportamentos estereotipados; 


Diante destas peculiaridades, pode-se surgir a seguinte pergunta: o cirurgião-dentista está apto para o atendimento destes pacientes?

Sim, o atendimento odontológico de pacientes com TEA deve ser adaptado e individualizado, respeitando as limitações individuais de cada paciente conforme o grau em que este é acometido pelo transtorno. 
 

São encontrados nesse grupo altos índices de biofilme e elevada atividade cariogênica devido à dificuldade na realização da higiene oral explicada pelas alterações de coordenação e pouca cooperação, o que justifica a intervenção primariamente preventiva por parte do cirurgião-dentista (CD).


A literatura aponta técnicas que auxiliam na gestão do comportamento semelhantes àquelas preconizadas pela Odontopediatria. Pode-se fazer uso também de sedação com óxido nitroso, estabilização e anestesia geral. 


É possível atender os pacientes com TEA em nível ambulatorial desde que haja uma abordagem adequada do profissional, fundamentada numa anamnese bem detalhada e aplicando-se estratégias criativas de condicionamento e estímulo ao autocuidado. 


São algumas estratégias citadas na literatura:

  • Massagem oral com uma toalha macia nos dentes antes da escova;
  • Uso de escovas elétricas;
  • Cremes dentais saborizados;
  • Ambiente tranquilo e aconchegante;
  • Mídia de tela eletrônica (estímulos visuais);
  • Estabelecimento de rotina de atendimento (marcação regular de consultas e evitando mudanças de elementos no consultório);

Outras técnicas provêm da Odontopediatria, são elas:

  • Técnica do Dizer-Mostrar-Fazer;
  • Distração;
  • Dessensibilização;
  • Controle de voz;
  • Reforço positivo ou recompensa;
  • Modelação;
  • Linguagem corporal;

O atendimento de pacientes com TEA deve preferencialmente ser acompanhado de atividades lúdicas e divertidas as quais possam motivar a interação social e a aprendizagem e visando o estabelecimento de um relacionamento cordial e respeitoso entre o paciente e o CD. 


A relação de confiança entre ambos beneficia o atendimento odontológico e o torna mais confortável para o paciente.


A musicoterapia tem sido apontada como grande aliada no que diz respeito ao condicionamento do paciente com TEA, uma vez que a música estimula processos cognitivos complexos como atenção dividida e sustentada, memória, controle de impulso, planejamento, execução e controle de ações motoras.

 

E quanto ao manejo farmacológico? Como o cirurgião-dentista deve atuar?

O uso de fármacos auxilia na atenuação dos sintomas específicos do Transtorno do Espectro Autista, dentre eles, são usualmente prescritos estabilizadores de humor, anticonvulsivantes, antipsicóticos e antidepressivos, assim como na sedação consciente, sendo opções viáveis o óxido nitroso, diazepam, hidroxizina e prometazina. 


O óxido nitroso é o método mais comum no cotidiano clínico-odontológico. Essa substância gasosa é capaz de deprimir a atividade do sistema nervoso central, resultando em um efeito tranquilizante. A sedação, no entanto, depende da colaboração do paciente. 


Para a utilização desse método, deve-se pesquisar por problemas respiratórios prévios, cirurgias ou traumatismos anteriores através da anamnese, bem como examinar a região das amígdalas e vias aéreas. Todavia, os autores corroboram que a execução da sedação consciente deve ser aliada às técnicas básicas de controle de comportamento, sendo assim mais eficiente.


Quanto ao uso de anestesia geral, entretanto, deve ser realizada estritamente por um profissional devidamente capacitado em ambiente hospitalar. 


A literatura reconhece que a anestesia geral deve apenas ser executada como último recurso e após o insucesso das outras técnicas de manejo ou perante a necessidade de procedimentos invasivos cuja execução torna-se impossível em consultório, podendo estes causar futuros traumas psicológicos.


Tendo em vista que o atendimento odontológico ao paciente com TEA é imprescindível, o CD deve ser receptivo quanto às adaptações necessárias para um adequado acolhimento e manejo, dotado de sensibilidade e capaz de compreender as variações do espectro autista e a individualidade de cada paciente. 


Ademais, o CD deve contribuir para a multidisciplinaridade do atendimento ao paciente autista, relacionando-se de forma eficaz com pediatras, nutricionistas, psicólogos, psiquiatras e terapeutas ocupacionais a fim de intervir no contexto familiar e social em que ele vive e impactando na integridade de sua saúde física e mental. 


O cirurgião-dentista, bem como os demais profissionais de saúde, deve atuar de forma transformadora na vida dos pacientes e reconhecê-los como um conjunto de pessoas únicas, mas não menos iguais.

 

Autor: Ian Oliveira

Referências


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