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Residência em oncologia, um crescimento profissional e pessoal | Colunista

Residência em oncologia, um crescimento profissional e pessoal | Colunista

O câncer no Brasil é considerado como um problema de saúde pública e está entre as causas mais frequentes de morte (COSTA et al, 2018). A oncologia é a área da saúde responsável pelo estudo e tratamento dos diversos tipos de câncer notificados na literatura.

O câncer consiste em uma doença crônico degenerativa, apresentando crescimento rápido, desordenado, invadindo tecidos e órgãos. O surgimento desta condição clínica se dá a partir de mutação genética (DE MORAIS, 2019). No organismo, verificam-se formas de crescimento celular como as neoplasias, que correspondem à crescimentos não controlados e são denominados, na prática, de “tumores” (BRASIL,2011).

A formação dessa doença em geral acontece lentamente, como vários anos para que uma célula cancerosa se prolifere, estimulando a formação de um tumor visível. Este processo de formação é conhecido como carcinogênese ou oncogênese. A carcinogênese é determinada pelo tempo de exposição, em dada frequência e período (DE MORAIS, 2019).

O tratamento de eleição para a maioria dos casos consiste na excisão cirúrgica acompanhado de radioterapia e quimioterapia. A radioterapia é um recurso loco regional que visa destruir células cancerígenas através dos feixes de radiação ionizante (DE MORAIS, 2019). A quimioterapia consiste no uso de drogas injetáveis que provocam queda da imunidade (KREUGER, 2009).

O tratamento depende da localização da neoplasia, do seu grau de malignidade, do seu estadiamento e da condição de saúde do indivíduo. As modalidades terapêuticas oncológicas têm evoluído levando a cura de pacientes que antigamente eram tratados como paliativos. Ao destruir as células tumorais, as modalidades terapêuticas podem causar danos irreversíveis às células normais, levando a efeitos colaterais agudos e crônicos, reversíveis e irreversíveis (COSTA et al., 2018).

Dentre os locais acometidos com esses efeitos, a cavidade bucal é um dos mais agredidos, necessitando da atuação do cirurgião dentista dentro da equipe multidisciplinar, realizando atividades preventivas e no tratamento da dor, possibilitando a qualidade de vida desses indivíduos (SILVA, 2018).

ATUAÇÃO DO CIRURGIÃO DENTISTA NA ONCOLOGIA

A atenção odontológica ao paciente oncológico deve ser voltada para o aspecto da humanização e valorização do indivíduo, para tentar melhorar a qualidade de vida destes pacientes. O tratamento oncológico consiste em uma abordagem complexa, necessitando de uma equipe multidisciplinar para atender as necessidades do paciente desde o diagnóstico até a reabilitação (DE MORAIS, 2019).

Os efeitos adversos mais relatados durante o tratamento radioterápico são mucosite, xerostomia, hipossalivação, infecções bucais oportunistas, fibrose tecidual, osteorradionecrose, cárie, doença periodontal. A literatura relata a abordagem odontológica antes do início da radioterapia como vantagem, visto que, sua atuação visa a redução de efeitos indesejáveis, otimizando o tratamento oncológico (DE MORAIS, 2019).

A regulamentação de atendimentos odontológicos deve integrar condutas antes, durante e depois do tratamento oncológico. A prevenção e o tratamento podem estabilizar a função oral e diminuir a morbidade. Visto que, no decorrer do tratamento antineoplásico, as modificações na cavidade bucal atingem uma maior seriedade, pois tanto a quimioterapia quanto a radioterapia não separam as células normais de células neoplásicas (NOVAIS, 2019).

Algumas das complicações da radioterapia são: a osteorradionecrose, que dificulta a cicatrização dos tecidos, pois eles ficam hipovascularizados, hipóxicos e hipocelulares. os músculos que ficam na área da radiação, como pterigoide medial, masseter e músculos temporais, acabam sofrendo fibrose, o tecido das glândulas salivares é afetado, podendo causar de maneira permanente a interrupção do fluxo salivar e disgeusia pela degeneração histológica dos botões gustativos (NOVAIS, 2019).

Outra complicação comum é a mucosite oral, que causa grande impacto na qualidade de vida do paciente e pode levar a interrupção do tratamento oncológico, resultando em graves consequências em termos de resposta tumoral. Aproximadamente 60% dos pacientes em tratamento radioterápico convencional de cabeça e pescoço e mais de 90% dos pacientes submetidos a uma terapia combinada são sujeitos a desenvolvimento de grave mucosite oral (KREUGER,2009).

Com base em todas essas informações, pode-se confirmar a importância do cirurgião-dentista antes, durante e após o tratamento oncológico. Ademais, além da atuação profissional que exige um vasto conhecimento sobre estomatologia, patologia e farmacologia, com esses pacientes é preciso ter um olhar mais humanizado em relação a tudo que eles estão vivenciando, o que acarreta um crescimento pessoal também. Então, como atua o dentista que escolhe a residência em oncologia?

Embora não exista, hoje, a especialidade oncologia na área da odontologia, dentistas têm ampla atuação neste universo, que abrange desde a prevenção e o diagnóstico precoce do câncer de boca, até as diferentes fases terapêuticas – a fim de tratar complicações decorrentes da quimioterapia e radioterapia (EQUIPE ONCOGUIA, 2015).

O Ministério da Saúde (2015) desenvolveu um plano de curso, que foca em todas as competências do egresso para residências Uni e Multiprofissionais e considera que durante a residência odontológica com ênfase em oncologia o residente deverá:

-Desenvolver ações educativas nas abordagens individuais e coletivas;

-Contextualizar e refletir, de forma interdisciplinar, acerca dos conflitos éticos e bioéticos enfrentados pela equipe multiprofissional e pelos usuários;

-Praticar e divulgar as políticas públicas de saúde com ênfase na saúde bucal em atenção oncológica;

-Relacionar-se de forma humanizada e ética com a equipe, os pacientes, os familiares e os cuidadores, com vistas à atenção integral;

-Desenvolver práticas integradas, buscando a melhoria da qualidade da assistência odontológica ao paciente oncológico nas diversas modalidades de atenção;

-Produzir textos científicos na área de odontologia;

-Compreender os princípios básicos da gestão em saúde bucal: planejamento, monitoramento e avaliação;

-Prestar assistência odontológica específica ao paciente oncológico na perspectiva de atenção integral, a partir de uma abordagem interdisciplinar, por meio das seguintes ações:

  • Realização de anamnese e exame físico;
  • Solicitação e/ou interpretação de exames laboratoriais clínicos e de imagem;
  • Atendimento, resposta e solicitação de parecer entre clínicas;
  • Diagnóstico e tratamento das doenças bucais e manifestações bucais de doenças sistêmicas;
  • Identificação, avaliação e tratamento das complicações bucais decorrentes da terapia antineoplásica;
  • Diagnóstico e tratamento dos pacientes com indicação de reabilitação protética bucomaxilofacial;
  • Preparação, por meio de tratamento odontológico, dos pacientes;
  • Avaliação e assistência do paciente oncológico com dor em cavidade bucal;
  • Realizar a prevenção da cárie de radiação com tratamento de fluorterapia em moldeiras individuais.

Existe vários programas de residência Uni ou Multiprofissionais no Brasil na área da oncologia que atendem bem a esses requisitos, como o da Universidade Federal de Uberlândia, da Fundação Pio XII, da Faculdade de Odontologia de Pernambuco-FOP, junto com o e Hospital de Câncer de Pernambuco- HCP, do Instituto de Ciências Biológicas, junto com o Hospital Universitário Oswaldo Cruz são caracterizados por um ensino em serviço.

O enfoque se dá nos princípios da integralidade e da humanização, possibilitando o cuidado, em âmbito hospitalar, domiciliar e ambulatorial. Durante os programas serão desenvolvidos conhecimentos técnico-científicos e atitudes ético-humanísticas, que tornem o cirurgião dentista apto a realizar os procedimentos odontológicos, utilizar medidas de controle de infecção e gerenciamento de recursos materiais e humanos
(FUNDAÇÃO PIO XII, 2016; COREMU, 2019; CAMPOS, 2020). 

Com o término do programa o profissional deverá ser capaz de coordenar ações com base no rigor científico, técnico e metodológico de maneira crítico-reflexiva e de forma interdisciplinar na rede de atenção oncológica no que tange a atenção básica, de média e de alta complexidade – desenvolvendo papéis que perpassem pelos campos de promoção da saúde, prevenção de agravos, rastreamento, detecção precoce, diagnóstico, tratamento, reabilitação e cuidados paliativos (CAMPOS, 2020).

Uma entrevista realizada pelo portal Oncoguia com Marcos Curi, Doutor em Oncologia pelo Hospital A. C. Camargo e responsável pelo setor de Estomatologia do serviço do Hospital Santa Catarina, atuando a mais de duas décadas na odontologia oncológica, traçou um paralelo entre autocuidado das mamas e autocuidado da boca, como formas de prevenção do câncer e explicou as razões pelas quais é fundamental que pacientes oncológicos sejam acompanhados por dentistas. Ele afirma que:

“A odontologia tem ampla atuação na Oncologia, que envolve desde a prevenção e o diagnóstico precoce do câncer de boca, até o acompanhamento do paciente durante todo o tratamento oncológico, prevenindo e tratando complicações bucais decorrentes das terapias. Apesar de não existir uma especialidade odontológica voltada para o paciente com câncer, deve haver uma formação e capacitação do dentista para atuar nessa área por meio de estágios ou residências. Várias especialidades odontológicas têm espaço para atuar junto ao paciente oncológico, como, por exemplo, a cirurgia e a prótese. O meu conselho aos pacientes oncológicos e médicos oncologistas é a prevenção de todas as complicações bucais decorrentes do tratamento oncológico por meio de uma consulta odontológica especializada, antes do início da terapia”
(EQUIPE ONCOGUIA, 2015).

Ademais, a Dra. Michele que fez residência no Hospital do Câncer de Pernambuco estudou o impacto da xerostomia na qualidade de vida de pacientes submetidos à radioterapia de cabeça e pescoço. Para Dra. Michele, o período de residência aprofundou os conhecimentos que ela adquiriu na faculdade e foi fundamental para o aprendizado sobre o câncer. “A oncologia ainda não é uma especialidade da odontologia, mas há uma necessidade muito grande de profissionais especializados, porque nós sabemos que o câncer é uma das doenças que mais crescem no mundo”, enfatizou (LOPES, 2017).

CONCLUSÃO

A área da odontologia oncológica vem crescendo cada vez mais no Brasil, mas ainda é pouco abordada nas universidades brasileiras como uma especialização. Então, depois de ler mais sobre a área e sentir o desejo de fazer a residência terá com toda certeza uma experiência única de aprendizado e aperfeiçoamento profissional e pessoal.

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REFERÊNCIAS

BRASIL. ONCOLOGIA: MANUAL DE BASES TÉCNICAS. MINISTÉRIO DA SAÚDE. SECRETARIA DE
ATENÇÃO À SAÚDE. DEPARTAMENTO DE REGULAÇÃO, AVALIAÇÃO E CONTROLE COORDENAÇÃO-GERAL DE SISTEMAS DE INFORMAÇÃO. 13º edição, Brasília- DF. Agosto de 2011.

DE MORAIS, Sunamitha Sueyla Custódio et al. ATENÇÃO ODONTOLÓGICA NO TRATAMENTO ONCOLÓGICO, UM RELATO DE EXPERIÊNCIA. Anais da Jornada Odontológica de Anápolis-JOA, 2019.

NOVAIS, Italo Santos. Assistência odontológica de pacientes em tratamento oncológico: concepção do cirurgião dentista. 2019.

KREUGER, Maria Regina Orofino et al. Complicações orais em pacientes em tratamento quimioterápico na UNACON, no município de Itajaí/SC. Revista da Faculdade de Odontologia de Lins, v. 21, n. 1, p. 39-47, 2009.

COSTA, Karoline Simoes et al. A IMPORTÂNCIA DO MANEJO ODONTOLÓGICO EM PACIENTES ONCOLÓGICOS. Anais da Jornada Científica e Cultural FAESA, p. 12-13, 2018.

SILVA, Daniel José Ferreira da. Odontologia hospitalar: revisão de literatura. 2018.

CAMPOS, Chrystian R, Atenção em Oncologia, residência uni e multiprofissional da Universidade Federal de Uberlândia, 17 de janeiro de 2020. <Disponível em: http://www.famed.ufu.br/pos-graduacao-lato-sensu/residencia-uni-e-multiprofissional/apresentacao/areas-de-concentracao-7 >. Acesso em: 14 de julho de 2020.

LOPES, Michele. Primeira residente de Odontologia Oncológica apresenta monografia, blog Hospital do Câncer de Pernambuco, 12 de abril de 2017. <Disponível em: https://www.hcp.org.br/index.php/blog/95-destaque-inferior/445-primeira-residente-de- odontologia-oncologica-apresenta-monografia>. Acesso em: 14 de julho de 2020.

FUNDAÇÃO PIO XII. Odontologia Oncológica, blog Hospital do Amor, 08 de fevereiro de 2016. Disponível em: https://www.hcancerbarretos.com.br/odontologia>. Acesso em: 14 de julho de 2020.

EQUIPE ONCOGUIA. Blog Instituto Oncoguia, 15 de setembro de 2015. Disponível em: http://www.oncoguia.org.br/conteudo/entrevista-multidisciplinaridade-odontologia- na-oncologia/5245/8/>. Acesso em: 14 de julho de 2020.

COREMU. INFORMAÇÕES GERAIS DOS PROGRAMAS DE RESIDÊNCIA EM ÁREA PROFISSIONAL DE SAÚDE EDITAL SUS PE 2019. Universidade de Pernambuco – UPE. Recife, 2019.

MINISTÉRIO DA SAÚDE. Programas de Residência Multiprofissional em Oncologia e Residência em Física Médica. Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva (INCA). Rio de Janeiro, 2015.

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