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As emoções podem afetar a minha imunidade? | Colunista

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Segundo o Psicólogo Robert Ader (1932—2011), considerado pai da Psiconeuroimunologia — área de estudo que trata do relacionamento entre cérebro, comportamento e sistema imunológico — a resposta para essa pergunta é sim! Os estados emocionais possuem a capacidade de influenciar positiva ou negativamente o funcionamento do sistema imunológico.

Na década de 30 o endocrinologista Hans Selye (1907—1982) foi o pioneiro a considerar os impactos biológicos decorrentes do estresse. Desde então, estudos sobre interações anatômicas e funcionais entre os sistemas nervoso e imune avolumaram-se acentuadamente na comunidade científica.

Transição de paradigmas

A medida que avançam os anos, a ciência desvela achados sobre as condições de integralidade sistemática no funcionamento do corpo humano, demonstrando a reciprocidade comunicativa entre alguns sistemas e circuitos que, até pouco tempo, eram encarados como autônomos e fim em si mesmos. As evidências contemporâneas afastam-se progressivamente do paradigma cartesiano, derivado do dualismo de René Descartes, enquanto se aproximam de uma perspectiva mais holística no que tange a relação saúde-doença.

Diversos achados científicos já impactaram e corroboraram essa perspectiva de estudo, como as recentemente descobertas sobre os encadeamentos do sistema digestivo com o sistema nervoso central (SNC), ou, mais precisamente, entre o intestino e o cérebro. Bem como os estudos na área da psicossomática que revelam a existência de repercussões orgânicas originadas em um deficitário processamento emocional. Isto é, essa parca elaboração de conteúdos intrínsecos encarrega o organismo de reestabelecer a homeostase perdida mediante um processo denominado de somatização.

Por conseguinte, flagra-se um contorno cada vez mais saliente entre a saúde mental e orgânica e é esse contexto que comporta a Psiconeuroimunologia.

O que é a Psiconeuroimunologia?

Psiconeuroimunologia é a disciplina caracterizada por opor-se a ideia de que o sistema imunológico possui ação autonômica e funcionamento comedido a se ajustar, exclusivamente, por fatores químicos. Segundo essa área do conhecimento, o sistema imunológico possui interações anatômicas e funcionais que detém sensibilidade a regulação de outros sistemas, como o nervoso e o endócrino. Os estudos da disciplina revelam que essa comunicação entre os sistemas é bidirecional, ou seja, guardam entre si uma relação de correspondência.

Conforme os aspectos mencionados, é possível concluir que diferentes esferas do ser humano, designadamente emocional e a cognitiva, podem influenciar o funcionamento imunológico de um organismo, contribuindo para seu aprimoramento e eficiência ou, de maneira oposta, lhe facultando perturbação debilidade.

A hipótese fundamental dessa tese é que estressores psicossociais contribuem para a imunossupressão do sistema imunológico, deflagrando assim uma maior vulnerabilidade do organismo a doenças e menor potência na formação de anticorpos frente a ameaça de antígenos, condição essa conhecida como imunodeficiência.

O papel das emoções

Para uma compreensão mais contundente sobre o modelo e suas implicações, é necessário salientar sobre o que são os aspectos psicossociais que foram mencionados como principais fomentos para o encadeamento explicitado. O termo psicossocial, por definição, se caracteriza pela combinação de fatores psicológicos e sociais, ou seja, é o encontro do psíquico com o ambiente e tudo que nele contém. Será nesse encontro que emergirão os estados emocionais, que, por sua vez, serão os principais catalisadores do processo.

Emoção é uma repercussão de eventos fisiológicos que nos compelem a fazer algo e todos os estados emocionais tem o compromisso de aumentar o que, na Psicologia Comportamental, é chamado de “fitness” que, nada mais é, do que um acréscimo nas chances de sucesso de um organismo frente a um contexto específico. Com “sucesso” entende-se a ação do organismo sobre o meio visando sua sobrevivência e adaptação. Segundo Bottura (2007) “Cada emoção tem um componente muscular, comportamental, bioquímico, e uma função de sobrevivência”.

Porém, a imersão de estados emocionais em um organismo não necessariamente é eliciada consoante a realidade que se apresenta e sim pelas interpretações e significados atribuídos a ela. Alguns fatores envolvidos que impactam a interpretação do mundo são os traços de personalidade e o repertório de experiências pregressas que geram respostas aprendidas (p.e. o sujeito A interpreta uma determinada situação como neutra e não ameaçadora, enquanto o sujeito B, experienciando exatamente a mesma situação, é acometido por pensamentos negativos e distorcidos, conduzindo seu organismo a um estado de alerta).

Isto é, o organismo não distingue uma ameaça real de uma imaginada, portanto serão mobilizadas defesas imediatas para neutralizar o risco do estímulo ameaçador, seja ele factual ou não. Atualmente, a psicoterapia Cognitiva apresenta maior inclinação na compreensão e proposição de mudanças relacionadas a distorções cognitivas.

Eis, então, um substancial impasse na saúde de um indivíduo, pois a distorção da realidade conduz o organismo a um desnecessário estado de alerta, estressando assim todos os sistemas que participam da mobilização, dentre eles, o referido sistema imunológico. O estresse contínuo pode tolher a eficiência de tais sistemas, o levando a um aumento de sintomas médicos.

A figura abaixo apresenta de forma objetiva a sucessão de eventos supracitados, desde a interpretação e significados conferidos a uma respectiva experiência até o possível aumento da vulnerabilidade no organismo:

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Como evitar esse processo nocivo?

A adoção de padrões mais realistas na apreensão da realidade pode contribuir para não demandar resposta de enfrentamento desnecessárias, ou seja, a incitação de estados emocionais frente a estímulos ficcionais seriam menos frequentes. Além disso, a resolução das emoções já presentes no indivíduo, bem como a capacidade de identificar e nomear as emoções, conceito denominado de granularidade emocional, podem favorecer o retorno ao equilíbrio na comunicação entre os sistemas e contribuir para imunocompetência do organismo.

No entanto — pelo caráter multideterminado dos estados emocionais, pela subjetividade de cada indivíduo e também a depender da gravidade do quadro apresentado — um indivíduo, sem amparo profissional, pode não ter recursos intrínsecos suficientes para identificar a etimologia do problema e compreende-lo, de modo a impossibilitar a deliberação de intervenções efetivas e funcionais. Portanto, buscar uma avaliação psicológica e, se necessário, ingressar em um processo psicoterapêutico é sempre a indicação mais prudente e sensata.

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Referências

BOTTURA, W. Psiconeuroimunologia. Revista De Medicina, São Paulo 1-5, 2007. Disponível em: https://doi.org/10.11606/issn.1679-9836.v86i1p1-5

DALGALARRONDO, P. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2008.

DANIEL-RIBEIRO, C. U. Neuroimunologias. Neurociências , Rio de Janeiro, v. 5, n. 1, p. 3-5, 2009. Disponível em: http://www.ioc.fiocruz.br/cognicao/pdf/editorial_%20neuroimunologias_ctdr.pdf

MAIA, Â. D. C. Emoções e sistema imunológico: um olhar sobre a psiconeuroimunologia. Psicologia: teoria, investigação e prática, Portugal, p. 207-225, 2002. Disponível em: http://hdl.handle.net/1822/5826.

MARQUES-DEAK, A; STERNBERG, E. Psiconeuroimunologia: A relação entre o sistema nervoso central e o sistema imunológico. Rev. Bras. Psiquiatr. São Paulo, v. 26, n. 3, p. 143-144, 2004.   Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516-44462004000300002&lng=en&nrm=iso

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