Todas as Áreas

Carreiras

Atuação psicossocial a mulheres vítimas de violência doméstica e familiar | Colunista

Atuação psicossocial a mulheres vítimas de violência doméstica e familiar | Colunista

Resumo

Este relato descreve vivências tidas por meio de uma experiência de estágio na área de Psicologia em uma instituição voltada ao acolhimento a mulheres vítimas de violência doméstica e familiar, localizada na cidade de Salvador, no estado da Bahia. Perpassando por temas como direitos humanos, relações sociais e cidadania, a construção deste relato levou em conta a análise crítica de dados fundamentados na Psicologia Social Comunitária. Através dos exercícios realizados no estágio foi percebido a necessidade de espaços que discutam sobre essas realidades sociais e a importância do falar na construção acadêmica, no que tange o ensino e a capacitação técnica atravessados por tal. Que carrega em seus movimentos contra-hegemônicos, práticas compromissadas.

Introdução

Os programas de estágios desenvolvidos em prol do contato a área de atuação para estudantes de graduação, ao longo do tempo, vem se fortalecendo por meio de propostas oferecidas não somente pelas instituições de ensino particulares, mas pelas próprias entidades públicas. De modo que, em específico a “[…] proporem múltiplas habilidades e competências profissionais, indicam valiosos caminhos para a melhoria dos processos de ensino-aprendizagem e o perfil do egresso em cursos de Psicologia […]” (CURY, 2013, p.149-150). Embora, ainda apresente necessidades “[…] que consigam fazer frente à diversidade da profissão e da categoria, demonstrar sua eficácia na articulação dos profissionais e sua vinculação efetiva com os projetos societários abrangentes” (YAMAMOTO, 2012, p.6).

As discussões inerentes a capacitação do espaço de atuação para/dos/com estudantes trazem inúmeras pautas não somente questionadoras da motivação de tais ações, mas também do lugar e os seus papéis em seus campos enquanto sujeitos em formação. Logo “pensando dessa forma, é possível conceber diferentes projetos ético-políticos simultaneamente propostos que disputam a hegemonia da profissão […]” (YAMAMOTO, 2012, p.6). Que implicados as representações constituídas a um serviço elitista, potencializam-se mais ao fazer da Psicologia Social e Comunitária a enfrentamentos contra-hegemônicos, abrangendo as demais abordagens.

Espaços que oportunizem, e capacitem visando ao acolhimento e direção a realização das atividades inerentes ao estágio, remetem também ao órgão competente compreensões a respeito da importância ao compromisso ético-político. Que em concordância a Yamamoto (2007),

[…] supõe articular uma dupla dimensão: de um lado, as condições macrossocietárias, que estabelecem o terreno sócio-histórico em que se exerce a profissão, seus limites e possibilidades, e, de outro, as respostas sócio-históricas, ético-políticas e técnicas de agentes profissionais a esse
contexto, as quais traduzem como esses limites e possibilidades são analisados, apropriados e projetados (pelos profissionais) (p. 222).

Nesse sentido, torna-se imprescindível refletir, e sobretudo discutir sobre em que condições são colocados (as). Principalmente ao se tratar do que concerne aos planos e objetivos de cada proposta. Tendo em vista, “[…] o “ocultamento” das condições de vida nos discursos […]” (BOCK; FURTADO; AGUIAR; OZELLA; SANCHEZ; KAHHALE; REY; LIEBESNY, 2001, p.30) da mesma, imbricados a ações hegemônicas apoiadas a contextos históricos marcados por movimentos sociais de luta e resistência, em vigência.

Logo, foi pensado sobre a extensão dos impactos que as práticas atreladas a hegemonia de poder entre essas instituições provocam, no processo da formação acadêmico vivenciado por meio do estágio, apesar de alcançar determinados avanços. Práticas essas muitas vezes naturalizadas que envolvem diretrizes de modelos de ensinos a banalização das experiências estudantis em seus campos de atuação (estágio). Deste modo, “não é possível conceber um atendimento das demandas da população sem a oferta de serviços para os quais o psicólogo tenha competência técnica” (YAMAMOTO, 2012, p.2), que dialoguem desde os processos formativos nesses espaços.

No sentido de que, se enfrente enquanto prática libertadora a “autoridade da experiência” (HOOKS, 2020) permeada por “[…] políticas de dominação racial, sexual e de classe social” (p.110).

O começo

Inicialmente foi realizado um processo de seleção através de um programa de estágio de uma instituição pública em Abril do ano de 2018, que se foi solicitado os dados referentes aos documentos e informações necessárias para recrutamento. Passado o tempo previsto para decisão, por meio de informe digital da plataforma institucional, foi verificado a minha aprovação junto a convocação ao departamento pessoal, localizado na cidade de Salvador, no estado da Bahia. Em presença, se foi discutido com o representante legal da seção sobre minha locação ao ambiente em que iria estagiar.

Apesar das dificuldades quanto a acessibilidade e mobilidade apresentadas em encontro, fui alocada pelo superior, à atuação a mulheres vítimas de violência doméstica e familiar. Na condição de estagiária de Psicologia, direcionei-me ao lócus. Ao chegar, fui recebida e encaminhada a realização de atividades administrativas.

Em discussão a seguimento da função pela qual teria que exercer, fui informada sobre as dificuldades provenientes da alta rotatividade quanto a fragilidade na supervisão. Ao decorrer, através de intensos diálogos consegui por meio de alguns encontros, fundar um projeto 2 . Logo, incluindo parceria com um estágio supervisionado específico em Psicologia Social e Comunitária, de uma instituição privada de ensino, no intuito de oferecer melhores meios de acolhimento visando a saúde biopsicossocioespiritual das assistidas.

A idealização do projeto se deu pela impossibilidade de um atendimento e acompanhamento por conta da fragilidade apresentada. Como parte desses atravessamentos, foram realizadas oficinas para as próprias, sobre a relação com o corpo. Durante o passar, foi percebido inúmeras problemáticas, oriundas de resistências a proposta por meio da instituição pública e, impedimentos a disponibilização dos carros para o transporte para o local em que foi estabelecido a realização das sessões, em parceria a instituição de ensino.

Por tais implicações, prezando o cuidado frente aos conflitos existentes em atuação, a parceria as estagiárias do Estágio Supervisionado Específico em Psicologia Social e Comunitária, foi finalizada. Levando em conta ao compromisso frente a minimização dos comprometimentos psicológicos das assistidas, ocorreu um fechamento voltado ao desligamento. Após, realizei um relato explicativo para responsável da instituição, seção e, me desliguei do estágio.

Reflexões sobre a vivência

Conforme afirma Yamamoto (2012,p.6) “é desnecessário aduzir que hegemonias são construídas e conquistadas, e não impostas[…]”. Nesse sentido, cabe enquanto imprescindibilidade o entendimento de que, “[…] estudar alguma coisa historicamente significa estudá-la no processo de mudança” (VYGOTSKY, 1999, p.67). No qual, resulta ao olhar sócio histórico sobre a constituição dos construtos entre as relações acadêmicas e profissionais.

Do que se foi percebido através da atuação, é justamente as implicações de problematizações do campo da Psicologia Social e Comunitária, voltada a questões imbricadas a que (m) se serve (m), nos campos das realidades sociais. Em caso, foi observado através dos conflitos oriundos da instituição em que fui alocada, discursos implicados a ações intergeracionais de resistências, que neste caso a fazeres a mulheres vítimas de violência doméstica e familiar.

Para Hanada; D’Oliveira;Schraiber (2010,p.2),

Alguns estudos apontam que as intervenções sobre as situações de violência, na área da Saúde, são compreendidas pelos profissionais como pertinentes aos cuidados de saúde mental (psicólogos ou psiquiatras), havendo uma prática de encaminhamento desses casos para esse setor ou esses profissionais.

Apesar de ser um ambiente institucional de assistência a medidas protetivas, minha alocação se deu pelo fato de que a pessoa que seria responsável por minha supervisão era profissional de psicologia, caracterizando-se como ideal para minha atuação ali naquele ambiente, para além do fazer quanto às medidas. Fato este, que não foi considerado justamente pela lógica pautada de que aquele espaço deveria abster-se somente a questão de seguridade. Sendo que, a proposta apresentada englobava também a saúde como biopsicossocioespiritual.

A atenção a práticas contra hegemônicas em ambiente de trabalho, trouxe desdobramentos importantíssimos para a emancipação social das mulheres acolhidas. De modo, a oportunizar o desenvolvimento da autonomia e protagonismo das mesmas. Todavia, a reflexão sobre a fragilidade quanto ao acompanhamento e capacitação, continuaram alarmantes. Que ao decorrer, complexificaram o meu processo de experiência consequenciando a processos de adoecimentos.

Deste modo, vale salientar e retificar para o fato de que

[…] devemos interpelar todos aqueles que ocupam uma posição de ensino nas ciências sociais e psicológicas, ou no campo do trabalho social- todos aqueles, enfim, cuja profissão consiste em se interessar pelo discurso do outro. Eles se encontram numa encruzilhada política e micropolítica fundamental. Ou vão fazer o jogo dessa reprodução de modelos que não nos permitem criar saídas para os processos de singularização, ou, ao contrário, vão estar trabalhando para o funcionamento desses processos na medida de suas possibilidades e dos agenciamentos que consigam pôr para funcionar Isso quer dizer que não há objetividade científica alguma nesse campo, nem uma suposta neutralidade na relação (GUATTARI; ROLNIK, 1988, p.29).

Assim, administrar projetos e ações sem supervisões, fomentou a importância da construção de estudos e iniciativas que debatessem sobre a falta de apoio e direcionamento ao percurso do mercado de trabalho, estendendo-se para a vida em geral, mesmo em meio ao surgimento dessas propostas de estágios.

Logo, compreendi em desenvolver de tais vivências, que tais ações precisam em sua integralidade atuarem em conjunto. De modo, a atenderem dentro das especificidades as lacunas avaliadas em discussão. Posto isto, considero que “[…] o desafio cresce diante da conjuntura nacional extremamente desfavorável para a garantia das conquistas já efetivadas e para o reconhecimento de novos direitos” (ROCHA, 2016, p.314), incursos nessas questões.

Considerações finais

Adentrar em espaços pressupõe-se o cuidado frente a instituições marcadas por fazeres de lutas. Pensar em uma Psicologia comprometida a esse alcance social, implica a desnaturalização histórica de um serviço que constituiu-se a serviço do elitismo aos chamados ditos “problemas”, isto é, aos vulneráveis.

A transformação social como parte da práxis da Psicologia Social e Comunitária também implica-se a intervenções micros. Que considerem o olhar interseccional e as categorias analiticas agregadas ao cuidado de um ambiente muitas vezes hegemônico. Assim, fomentando minha postura reconheço que a atuação em instituição, levou-me a entender a preponderância de uma educação libertadora, acompanhada pela prática.

Deste modo, retificando a ensinos que, legitimem o lugar da (o) estudante estagiária (o) e, fortaleçam as redes de apoios em seus campos de atuação, considerando suas relações interpessoais e intrapessoais. No qual, estejam voltadas a orientações que revejam também a estrutura institucional pelo qual se é inserido. Assim, reformulando o conceber dessas experiências.
 

Matérias relacionadas:

REFERÊNCIAS

BOCK, Ana Mercês Bahia; GONÇALVES, M. G.M; FURTADO, O (orgs); AGUIAR, Wanda M. Junqueira; OZELLA,Sergio; SANCHEZ, Sandra Gagliard; KAHHALE, Edna Maria Peters; REY, Fernando L. González; LIEBESNY, Brônia. Psicologia Sócio – Histórica: Uma perspectiva crítica em Psicologia. São Paulo: Cortez, 2001.

CURY, Bruno de Morais.Reflexões sobre a formação do psicólogo no Brasil: a importância dos estágios curriculares. 2013. Disponível em. Acesso 21 de Agosto de 2020.

GUATTARI, F.; ROLNIK, S. Micropolítica: Cartografias do Desejo. Rio de Janeiro: Vozes, 1988.

HANADA, Heloisa; D’OLIVEIRA, Ana Flávia Pires Lucas; SCHRAIBER, Lilia Blima. Os psicólogos na rede de assistência a mulheres em situação de violência.Disponível em . Acesso 22 de Agosto de 2020.

HOOKS, Bell. Ensinando a transgredir: a educação como prática da liberdade. 2. ed. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2020.

HOOKS, Bell. Olhares Negros, Raça e Representação. 1.ed. São Paulo:Elefante, 2019.

ROCHA, L. M. L. N. Feminismo, gênero e políticas públicas: desafios para fortalecer a luta pela emancipação. R. Pol. Públ. São Luís, Número Especial, p. 313-322, nov. 2016. Disponível em. Acesso 01 de Junho de 2020.

YAMAMOTO, O. H. 50 Anos De Profissão: Responsabilidade Social Ou Projeto Ético-Político?. Psicologia: ciência e profissão, 2012, 32 (num. esp.), 6-17. Disponível em. Acesso 21 de Agosto de 2020.

YAMAMOTO, Oswaldo Hajime; Oliveira, Isabel Fernandes de. Política Social e Psicologia: Uma Trajetória de 25 Anos. 2010. Disponível em. Acesso 21 de Agosto de 2020.

YAMAMOTO, Oswaldo Hajime. (2007). Políticas sociais,”terceiro setor” e “compromisso social”: perspectivas e limites do trabalho do psicólogo. 2007. Disponível em 71822007000100005&script=sci_abstract&tlng=pt>. Acesso 21 de Agosto de 2020.

Cadastre-se para ter acesso personalizado ao conteúdo completo da Sanar.
Cadastre-se para ter acesso personalizado ao conteúdo completo da Sanar.