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Conheça a psicologia de emergências e desastres | Colunista

Conheça a psicologia de emergências e desastres | Colunista

Terremotos, enchentes, pandemias… em meio a tanta calamidade, pode ser comum ver o trabalho de equipes de bombeiros ou de médicos, atuando nos primeiros socorros. Mas, você já pensou no que um psicólogo pode contribuir em tal contexto? Momentos de crise podem gerar um grande sofrimento psíquico. Diante disso, a Psicologia de emergências e desastres surge com o intuito de acompanhar e orientar
as vítimas a lidarem com os fatos da melhor forma possível.

Apesar de ser uma área relativamente nova no Brasil, profissionais voltados para este tipo de atuação já se fizeram presentes em alguns desastres brasileiros. Um exemplo foi a participação dos mesmos no incêndio da Boate Kiss ou no rompimento da barragem de Brumadinho. Mas isso discutiremos mais tarde.

Conceito de desastre e emergências

Antes, é interessante deixarmos claro o conceito de emergência e desastre. Enquanto emergência se refere a uma situação crítica que exige providências imediatas; desastre pode ser entendido como crise, uma interrupção do estado normal de funcionamento. Uma crise pode causar danos materiais e imateriais até para as pessoas que não estão diretamente associadas ao evento. Isso mostra a necessidade de ações de uma equipe multi e interdisciplinar.

O papel da psicologia em desastres

Considerando a divisão do desastre em três etapas – pré-desastre, durante o desastre e pós-desastre – feita pela Sociedade Chilena de Psicologia das Emergências e Desastres, a atuação do psicólogo varia em cada uma delas. É importante enfatizar também a relevância de uma análise dos indivíduos, considerando suas subjetividades, em cada etapa do processo, pois assim torna possível a escolha das formas de atuação necessárias.

Agora vamos falar um pouco sobre a atuação psicológica em cada etapa:

  1. Pré- desastre: Nesse momento o foco está na prevenção. A partir da educação preventiva e de treinamentos, o psicólogo objetiva a minimização de possíveis prejuízos.
     
  2. Durante o desastre: Nesta fase, a atuação pode ser feita de forma direta ou indireta. A forma direta se dá pelo atendimento das vítimas e familiares e pela identificação de suas demandas – psicoemocionais e sociais – de forma acolhedora. Já a forma indireta é feita a partir da capacitação e suporte da equipe multidisciplinar que trabalhará diretamente com as vítimas. A equipe é orientada a reconhecer e trabalhar suas limitações e questões.
     
  3. Pós-desastre: Aqui o objetivo central é o acompanhamento e auxílio na reconstrução do equilíbrio social. Desse modo, o psicólogo auxilia na retomada de atividades, no processo de luto das vítimas, na identificação de alterações cognitivas e emocionais decorrentes de traumas, entre outros modos de intervir.

 

Atuação da psicologia em desastres brasileiros

Agora vamos falar sobre a atuação da psicologia em alguns casos de desastre no Brasil.

  1. Acidente do Césio-137: Este foi o primeiro desastre brasileiro com um registro da atuação de psicólogos. O acidente se deu quando dois catadores de lixo encontraram um aparelho de radioterapia no ferro velho. Dentro do aparelho foi achado um pó azul luminoso, que chamou atenção, sendo, então, distribuído para diversas pessoas. Posteriormente, descobriu-se que este pó era o césio- 137, uma substância radioativa.

    Neste caso, estima-se que, aproximadamente, 1000 pessoas entraram em contato com o césio-137, sendo que destas, 129 apresentaram sintomas e 4, das 49 pessoas internadas, morreram. Estas 4 pessoas foram enterradas em caixões de chumbo a fim de que o solo não fosse contaminado pelo material radioativo.

    A intervenção psicológica, neste desastre, fez-se presente após o período de contaminação. A atuação dos profissionais voltou-se, então, através da reflexão e de técnicas focadas nos sentimentos, para a minimização do nível de ansiedade, do medo da morte.
     

  2. Incêndio da Boate Kiss: A história se deu em 2013, a partir de uma festa de formatura na boate supracitada, que em um momento foi incendiada e matou ao todo, 242 jovens. O incêndio ocorreu quando um integrante da banda acendeu um sinalizador que pegou fogo no teto do local. Alguns aspectos da boate devem ser destacados: a superlotação naquele momento, a falta de proteções, de indicadores de saída, dificultando a evacuação, entre outros.

    Em meio a tanto caos, foram realizadas as medidas de socorro pela equipe multidisciplinar presente, incluindo psicólogos, os quais atuaram na tentativa de conter o desespero social. Estes seguiram um roteiro cujo conteúdo indica o aprendizado de: respostas comuns à exposição a eventos estressores, abordagens imediatas – como a abordagem do transtorno do estresse agudo.
     

  3. Rompimento da barragem de Brumadinho: Ao sofrer o rompimento, a barragem de Brumadinho formou ondas de rejeitos de minério de ferro, as quais atingiram a parte administrativa da empresa responsável, Vale, e a comunidade da Vila Ferteco. Como resultado, registrou-se 200 pessoas mortas e 98 desaparecidas.

    Neste caso, psicólogos voluntários intervieram no pós-desastre. Alguns exemplos das ações que eles  realizaram foram  o levantamento de demandas urgentes das vítimas, oferecendo uma escuta qualificada e acolhedora e o atendimento com o objetivo de auxiliar os mesmos a lidar com os fatos.

Psicologia e o Covid-19

Diante do contexto atual, pode-se notar que a maior parte das demandas sociais é referente a dificuldades para lidar com as dinâmicas decorrentes da pandemia. Grande parte está relacionada a crises de ansiedade e a sensação de falta de controle, o que resulta em diversas emoções conflitantes.

Com isso, a intervenção psicológica se dá – de acordo com a Resolução n°11 de 11 de Maio de 2018 e, com a sua atualização, a Resolução n°4 de 26 de Março de 2020 do Conselho Federal de Psicologia – através de atendimentos e consultas online. Estas podem ser de forma individual ou grupal, desde que garanta a segurança de todos. Além disso, as ações estão voltadas a produção de informação para a população, objetivando a construção de uma sensação de segurança e proteção na mesma.

Outra ação importante realizada pelos psicólogos está na produção de guias técnicos, cujo conteúdo é composto pelos primeiros cuidados psicológicos. O objetivo deste ato está na orientação dos profissionais da saúde que estão na linha de frente. Dessa forma, estes podem ser capacitados para acalmar um sujeito na primeira fase de resposta a uma pandemia, por exemplo.

Desse modo, compreende-se a importância da atuação de psicólogos dentro de um contexto emergencial e de desastres. Ressalta-se a necessidade de uma maior discussão e visibilidade para esta área da psicologia a fim de que mais profissionais possam se identificar e se engajar nesta ação.

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REFERÊNCIAS.

CFP. Resolução n°4 de 26 de Março de 2020. Disponível em:

CFP. Resolução n°11 de 11 de Maio de 2018. Disponível em:

CRP-MG. Ação em Brumadinho realça a atuação plural da psicologia. 2019. Disponível em:

CRP-RS. Atuação da psicologia em emergências e desastres é tema de debate. 2020. Disponível em:

FARIAS, L. SCHEFFEL, R., SCHRUBER J. Atuação do psicólogo nas emergências e desastres. Joinville

LELES, M. Reflexões iniciais sobre psicologia das emergências e catástrofes. 2019. Disponível em:

PORTELA, R.O trabalho do psicólogo em situações de emergências e desastres. Ijuí. 2019.

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