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Teleatendimento por força da pandemia: a influência sobre quem cuida | Colunista

Teleatendimento por força da pandemia: a influência sobre quem cuida | Colunista

Após os primeiros casos da Covid-19 serem diagnosticados no Brasil, em março de 2020, e as restrições de distanciamento social serem impostas, o Conselho Federal de Psicologia emitiu nota  a respeito da Resolução Nº 4, de 26 de março de 2020, que concerne sobre o serviço de atendimento online durante a pandemia.

Na Resolução nº 04/2020 (CFP, 2020) os Art. 3º, Art. 4º, Art. 6º, Art. 7º e Art. 8º da Resolução CFP nº 11 de 11 de maio de 2018, que normatiza os atendimentos realizados de maneira virtual suspendeu estes artigos durante a pandemia. Eles se referem a necessidade de aguardar a autorização do cadastro da(o) psicóloga(o) no sistema e-Psi e ao impedimento de realizar atendimentos de forma online de pessoas em situação de violação de direitos e violência, em situação de urgência, emergência e de desastre. Isto ocorre porque é sabida que essa situação de pandemia exige o distanciamento social como a principal forma de proteção contra a Covid-19. Sendo assim, permitir ofertar o serviço de psicoterapia a todas as pessoas é fundamental para cuidar da saúde mental dos indivíduos nesse cenário caótico de pandemia.

Tal resolução não dispensa o atendimento online alinhado ao Código de Ética Profissional do(a) Psicólogo. E vale lembrar que o Código de Ética (2005), no Art. 1º, alínea “c” orienta a prestação de serviço psicológico de qualidade, portanto, assegurar que a(o) psicóloga(o) esteja em condições adequadas para ofertar os seus serviços é uma responsabilidade da qual a(o) profissional necessita estar atenta(o).

O clima de incerteza, o medo do contágio e a imposição do distanciamento social são fatores que dificultam a geração de boas condições de trabalho para qualquer profissional, principalmente, para os da área da saúde que estão diretamente lidando com as consequências provocadas pela pandemia.

Estudos indicam que o impacto na saúde mental poderá perdurar para muito além da duração da própria pandemia. Coronafobia é o termo que vem sendo cunhado para definir os medos gerados pela pandemia como: o risco de contaminação, adoecimento grave e danos financeiros gerados pela crise sanitária da Covid-19. Sendo estas as principais causas associadas a transtornos de ansiedade, depressão, comportamentos obsessivos, paranoia, ideação suicida e reações de evitação produtos dos danos causados pela pandemia nos indivíduos (PEBMED, 2020).

Os profissionais da Psicologia não estão imunes a esses transtornos e nem livres de sentirem tais medos, pois, todos os seres humanos estão suscetíveis a contaminação do coronavírus mundialmente. 

Sabendo da possibilidade dessas graves consequências, muitos dos profissionais da Psicologia que ainda não atendiam de forma virtual, se organizaram rapidamente buscando adaptar os seus serviços de cuidado com a saúde mental respeitando as regras de distanciamento social por meio da Resolução para continuarem trabalhando. 

Entretanto, essa mudança de ambiente para o trabalho remoto, o home office, que não era habitual para muitos dos profissionais da área gerou implicações no bem-estar destes profissionais.

A mudança no formato de trabalho reverbera de modo objetivo e subjetivo na vida dos profissionais, pois, passam a ter que reaprender a desempenhar as suas atividades dentro de um único espaço físico, a sua própria residência, que passa a ser o território de trabalho, estudo, lazer, descanso, religiosidade e tudo sendo vivido em conjunto com os demais habitantes da casa durante todos os dias da semana.

Mudança de ambiente de trabalho e como impacta a saúde mental de quem cuida

O trabalho é uma importante dimensão na vida dos indivíduos, e, geralmente, ocorre no espaço público, na sociedade, e, em alguns casos no privado, o teletrabalho. Mas, com a chegada da pandemia essa relação passa a ter a necessidade de ocorrer somente na casa do profissional, impactando a sua forma de se expressar e atuar profissionalmente.

Sabemos que a psicoterapia tem um teor de sigilo obrigatório regulamentado pelo Código de Ética Profissional (2005) e que em um ambiente particular, no home office, compartilhado com os demais integrantes da família impõe um cuidado maior por parte do profissional para garantir essa privacidade no atendimento.

Esse ponto já pode ser o primeiro sinal de alerta ao profissional que passa a ter que cuidar de garantir um espaço dentro de casa para realizar o seu trabalho com qualidade dentro do que regulamenta o Código de Ética Profissional (2005).

Os desafios em lidar com essa confluência entre o público e o privado na vida dos profissionais são enormes como a adaptação no uso das ferramentas tecnológicas, assegurar um espaço de privacidade em casa para manter o sigilo dos atendimentos, a gestão do tempo entre as atividades de trabalho, tarefas domésticas, cuidados com a família e o autocuidado fazem parte desse desafio diário (GONÇALVES, CARDOSO, 2020).

Trabalhar de casa imersos em uma atmosfera de insegurança e angústia como a vivenciada durante a pandemia impede que seja um modelo home office sadio, portanto, ficar em alerta sobre as próprias emoções é essencial para que o profissional de Psicologia possa perceber suas condições de saúde física e mental para que garanta uma prestação de serviço com qualidade a população.

Segundo Gonçalves e Cardoso (2020), nessas condições de teletrabalho vividas na pandemia alguns sentimentos são bastantes comuns como: 

  • Medo do coronavírus, de contágio próprio e de pessoas queridas; de não ter vacina e tratamento adequado; da morte;

  • Raiva por não saber as respostas para seus medos;

  • Angústia provocada pela incerteza do futuro;

  • Tristeza pelo distanciamento social ou pelo adoecimento ou morte de pessoas próximas; e

  • Oscilação de humor.

Alternativas para mitigar os impactos

Sabemos que mesmo com a vacina contra a Covid-19 (estimada para iniciar em janeiro de 2021), ainda não se tem previsão de quando será seguro retomar o convívio social. Este é um desafio a ser transmutado de maneira íntima por cada pessoa. Para quem se ocupa de cuidar da saúde mental de outras pessoas é ainda mais importante prestar atenção às próprias emoções e sentimentos além de pedir ajuda sempre que julgar necessário.

Estar em psicoterapia e supervisão nesse momento é ainda mais importante para promover condições de autocuidado e de orientação sobre a melhor forma de lidar com tantos desafios e rearranjos pessoais e profissionais indispensáveis em tempos de pandemia.

Cuidar da saúde física por meio de uma alimentação saudável, evitar excesso de açúcar, fritura, bebida alcoólica alinhado a práticas de atividades físicas regulares também são ações de autocuidado essenciais para promover melhores condições de atravessar essa pandemia.

A prática da meditação para aprender a utilizar técnicas de respiração que possam aliviar a angústia, a ansiedade e a irritabilidade em prol de dias mais leves e menos aflitos é outra sugestão de autocuidado.

Em resumo, promover ações de saúde mental, atividades educativas, espiritualidade, autoajuda e planejamento de ações que aumentem a melhora na qualidade de vida são fundamentais para o cuidado da saúde dos profissionais (JUNIOR et al. 2020).

Leituras para compreender o contexto da pandemia para além das notícias dos jornais

O medo do futuro incerto e imprevisível que nos espera pós-pandemia é outro grande fator de angústia que prejudica a saúde mental e física, portanto, buscar ler e conhecer o que se tem de previsão por fontes seguras é um bom começo para lidar com esse sentimento. Conhecer outras perspectivas para além dos noticiários é importante para ampliar a compreensão dessa crise sanitária mundial.

Por isso, abaixo seguem algumas indicações gratuitas na internet para leitura:

  • Na batalha contra o coronavírus, faltam líderes a humanidade de Yuval Noah Harari.

  • O amanhã não está a venda de Ailton Krenak.

  • Ainda não temos respostas: reflexões sobre uma economia baseada no afeto de Maria Flávia Bastos.

  • Pelas janelas da pandemia: reflexões para um mundo por vir organizado por Leonardo Souza e Rafael Sanches.

Considerar que quem cuida também precisa de cuidado é premissa fundamental para todo profissional de saúde que esteja lidando com as consequências provocadas pela pandemia na população gerando adoecimento físico ou mental. Portanto, cuide de você em primeiro lugar. Faça psicoterapia para lidar melhor com o impacto dessa mudança de ambiente e do caos da pandemia provocados em você.

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Referências.

“Coronofobia”: o impacto da pandemia de Covid-19 na saúde mental. Portal PEBMED. Disponível em: https://pebmed.com.br/coronofobia-o-impacto-da-pandemia-de-covid-19-na-saude-mental/ Acesso em 14 dez. 2020.

Código de ética profissional do psicólogo. Disponível em: https://www.crpsp.org/pagina/view/49. Acesso em 14 dez. 2020.

GONÇALVES C. B. L. R.; CARDOSO M. H., Desafios do teletrabalho na pandemia covid-19: quando o home vira office. Caderno de Administração, v. 28, p. 71-75, 5 jun. 2020.

JÚNIOR, B. S. S. et al. Pandemia do coronavírus: estratégias amenizadoras do estresse ocupacional em trabalhadores da saúde. Enfermagem em Foco, [S.l.], v. 11, n. 1.ESP, ago. 2020. ISSN 2357-707X. Disponível em: http://revista.cofen.gov.br/index.php/enfermagem/article/view/3644/818. Acesso em: 14 dez. 2020.

Resolução nº 4, de 26 de março de 2020. Disponível em: https://atosoficiais.com.br/cfp/resolucao-do-exercicio-profissional-n-4-2020-dispoe-sobre-regulamentacao-de-servicos-psicologicos-prestados-por-meio-de-tecnologia-da-informacao-e-da-comunicacao-durante-a-pandemia-do-covid-19?origin=instituicao&q=04/2020 Acesso em: 14 dez. 2020.

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