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Novembro Azul: Os desafios enfrentados na atenção à saúde do homem

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Os desafios enfrentados na atenção à saúde do homem antecedem o diagnóstico ou não de uma doença. Estão na construção sociocultural do que é ser homem, que carrega a ideia de provedor, e incorre na impossibilidade de separar um momento do dia, mês ou semana para atendimentos preventivos. Estes últimos são sustentados também pela crença de ser infalível - ou de não poder ser fragilizado - justamente porque é o homem quem sustenta a família, é quem cuida, não quem é cuidado. 

Entre as implicações de um pensamento machista e prejudicial como esse, está a resistência do homem à realização do exame de próstata. O Novembro Azul destaca a importância da ida periódica ao médico para garantir mais chances de cura, já que a descoberta do câncer na fase inicial dá perspectivas mais otimistas ao paciente.

É num contexto sociocultural como esse, de uma sociedade que espera do "homem de verdade" virilidade, coragem, força e invulnerabilidade, que os homens adotam cada vez mais comportamentos de risco e se tornam mais vulneráveis ao adoecimento. E esse deve ser o ponto de partida para os profissionais na atenção à saúde do homem.

Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem

A saúde masculina como política de saúde pública passou a ser discutida nas últimas décadas do século XX, de modo que desde então temos acompanhado ações programáticas que focalizem o homem. Essas ações são respaldadas no Brasil pela Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem (PNAISH), que tem como objetivo: 

"Promover ações de saúde que contribuam significativamente para a compreensão da realidade singular masculina nos seus diversos contextos socioculturais e político?econômicos e que, respeitando os diferentes níveis de desenvolvimento e organização dos sistemas locais de saúde e tipos de gestão, possibilitem o aumento da expectativa de vida e a redução dos índices de morbimortalidade por causas preveníveis e evitáveis nessa população".

O documento se baseia na comprovação de que homens são mais vulneráveis a doenças, sobretudo àquelas mais graves e crônicas, e morrem mais precocemente do que as mulheres. A razão disso está na busca menos frequente por serviços de atenção básica.

A PNAISH, então, enfatiza a necessidade de mudanças de paradigmas referentes à percepção dos homens sobre o cuidado com sua saúde e a saúde de sua família, principalmente nos aspectos do serviços públicos de saúde. A defesa é que sejam organizados para acolher e fazer com que o homem se sinta parte daquela rede.

Essas iniciativas refletem princípios como humanização, qualidade, promoção, reconhecimento e respeito aos direitos do homem à saúde, considerando suas peculiaridades sócioculturais. Para tanto, devem ser considerados os seguintes elementos:

  • Acesso da população masculina aos serviços de saúde hierarquizados nos diferentes níveis de atenção e organizados em rede; 
  • Articulação com as diversas áreas do governo com o setor privado e a sociedade;
  • Informações e orientação à população masculina, aos familiares e a comunidade sobre a promoção, prevenção e tratamento dos agravos e das
  • enfermidades do homem;
  • Captação precoce da população masculina nas atividades de prevenção primaria relativa às doenças cardiovasculares e cânceres, entre outros agravos recorrentes;
  • Capacitação técnica dos profissionais de saúde para o atendimento do homem.

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Os desafios de profissionais de saúde

Os profissionais de saúde também são parte da sociedade que molda essa masculinidade tão prejudicial, mas é preciso chamar a atenção para determinantes que levam o homem a negligenciar sua saúde. Um estudo da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) a respeito das concepções de psicólogos sobre o adoecimento de homens com câncer traça um panorama importante.

Papel do homem

Adoecer não condiz com o que se espera do homem em uma sociedade machista e patriarcal. Enquanto as mulheres são estimuladas a observar o próprio corpo, cuidar de si e dos membros de sua família, os homens são motivados a garantir segurança da casa, demonstrar sua virilidade e força.

Adoecer é uma mudança repentina na existência masculina, na medida que revela sua vulnerabilidade, fragilidade e limitações. Buscar serviços de saúde põe em risco sua posição de provedor.

Além disso, há ainda o fato de que o horário de funcionamento dos serviços de saúde coincide com a carga horária de trabalho, o que é usado também como argumento para a negligência com a atenção à sua saúde.

Limites do corpo

Outro desafio enfrentado pelos profissionais de saúde devido às condicionantes socioculturais diz respeito aos limites do corpo do homem. Resguardado, intocável, visto por poucos, o homem sai da zona de confroto para uma condição de exposição em quadros de enfermidade.

No caso das nádegas e do ânus, regiões marcadas por conjunto de simbolismos, o toque retal usado nos exames de próstata são percebidos como uma violação da masculinidade. Quando diagnosticado o câncer e o corpo enfrenta condição de maior debilidade, a tendência é de desconforto ainda maior, já que os cuidados em procedimentos como banho e higiene íntima majoritariamente são proporcionados por profissionais do gênero feminino.

Câncer é tabu

O câncer é tabu. A figura do câncer está associada à morte, a uma sentença definitiva e imutável. Se no caso das mulheres já existe uma carga emocional por trás, nos diagnósticos em homens pesa também a desorganização familiar devido à estruturação em torno da figura masculina como chefe da casa. 

O sistema familiar patriarcal se sustenta no homem como provedor e um diagnóstico o coloca no lugar de vulnerável. 


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Construção do "ser homem"

A construção sociocultural do "ser homem" resume os desafios enfrentados pelos profissionais de saúde no cuidado à saúde masculina. O modelo hegemônico de masculinidade na cultura brasileira contribui para adesão, manutenção e continuidade do tratamento de doenças, principalmente câncer. 

Em ambientes mais rígidos, como o meio rural, o processo de socialização de homens e mulheres é muito bem demarcado. A noção do "ser homem" começa na infância, com brincadeiras que exploram a rua, a força, o desempenho físico. Dessa forma, são associados valores como força, virilidade, não vulnerabilidade.


Em geral, os estereótipos em torno do gênero afastam os homens do cuidado à saúde, porque cuidar se tornou um sinal de fragilidade e isso não dialoga com a condição biológica atribuída a esse grupo social. Essa questão precisa ser compreendida pelos profissionais de saúde, que precisam encontrar formas de manejar esse paciente e compreendê-lo em suas complexidades socioculturalmente construídas.

 

Referências

Resistência do homem em cuidar da saúde dificulta diagnóstico precoce do câncer de próstata

Concepções de psicólogos sobre o adoecimento de homens com câncer

Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem

 

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