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Covid-19: Entenda as principais alterações laboratoriais e sua relevância clínica | Colunista

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Desde o início da pandemia pelo SARS-CoV-2 diversos estudos vêm sendo realizados com a finalidade de compreender melhor o vírus, a fisiopatologia da doença, seu diagnóstico e tratamento. Desse modo, a área de análises clínicas apresenta relevância no prognóstico e acompanhamento dos pacientes enfermos, sendo que a avaliação dos exames laboratoriais é de extrema importância para uma melhor conduta da equipe médica perante cada caso. 

Mas afinal, você sabe quais as alterações laboratoriais o novo coronavírus provoca no organismo, a fisiopatologia envolvida no processo e como os resultados implicam na clínica do paciente?

Entre os principais exames laboratoriais que sofrem alterações estão:

  • Hemograma

  • PCR (proteína C reativa)

  • LDH (desidrogenase láctica)

  • Dímero D

  • Procalcitonina

  • VHS (velocidade de hemossedimentação)

  • AST (aspartato aminotransferase) 

  • ALT (alanina aminotranferase)

  • Gama Gt

Alterações hematológicas

Inúmeros estudos recentes demonstram que as principais alterações hematológicas são a linfopenia, a plaquetopenia, a eosinopenia e o aumento da proporção de neutrófilos para linfócitos. 

A diminuição de linfócitos é um achado laboratorial presente em cerca de 80% dos pacientes e acredita-se que isso ocorra em virtude da diapedese desses leucócitos para os tecidos lesados por meio da indução de citocinas liberadas pelo organismo. Estudos sugerem ainda que quanto menor a taxa de linfócitos circulantes maiores as chances de o paciente contrair uma infecção bacteriana e pior seu prognóstico. 

Em relação a diminuição das plaquetas, acredita-se que ocorra a partir das lesões em múltiplos órgãos e ativação da cascata de coagulação, levando à adesão e agregação plaquetária e consequentemente um maior consumo desse componente. 

Alterações trombóticas

Já não é novidade que a Covid-19 predispõe os pacientes infectados a coagulação intravascular disseminada e outros eventos trombóticos. Isso decorre da ativação da cascata de coagulação, já que o novo coronavírus age como um agente inicial de indução a formação de trombos. Além disso, estudos mais recentes realizados post mortem indicaram presença de carga viral no endotélio vascular, gerando uma inflamação local, a endotelite, que também é capaz de dar o “start” na coagulação sanguínea. 

Desse modo, o principal exame realizado na investigação da possível ocorrência desses eventos tromboembólicos é a dosagem de dímero D. O dímero D nada mais é do que um produto de degradação da fibrina, resultante do processo de fibrinólise, que ocorre depois da formação de trombos para que eles sejam degradados, garantindo a hemostasia sanguínea. 

Sendo assim, o aumento de dímero D na circulação sugere que estejam ocorrendo processos coagulativos, indicando à equipe médica a necessidade da administração de medicamentos anticoagulantes. 

Devido ao quadro trombótico, outras alterações comuns são o prolongamento do tempo de protrombina, do tempo de trombina e do tempo de tromboplastina parcial ativada, a diminuição de fibrinogênio plasmático e a elevação de antitrombina.

Alterações bioquímicas

Muitas são as alterações bioquímicas presentes no decorrer da Covid-19; isso ocorre principalmente em virtude da tempestade de citocinas que o corpo produz na infeliz tentativa de defesa. O aumento de substâncias pró inflamatórias pode ocasionar lesões em múltiplos órgãos, edema pulmonar e várias outras complicações. A partir da detecção dessas substâncias é possível avaliar a taxa de inflamação e partir para a farmacoterapia mais adequada. 

Diversos estudos descreveram uma elevação nas dosagens de procalcitonina, ferritina, interleucina-6 e interleucina-2 nos pacientes infectados. A dosagem de procalcitonina, no entanto, ganhou destaque. Antes sem muita utilização clínica, atualmente vêm sendo amplamente solicitada pelos médicos. Ela é uma proteína que atua como hormônio e citocina, se elevando em resposta a eventos inflamatórios. No entanto, seu maior uso clínico é na avaliação da predisposição a infecções bacterianas, já que níveis altos nos primeiros dias de internação são sugestivos de sepse e choque séptico.

Outro parâmetro bioquímico vastamente solicitado é a dosagem de proteína C reativa. A famigerada PCR é uma proteína de fase aguda produzida em resposta a lesões e inflamações teciduais. Ela é notavelmente utilizada em diversos casos pela capacidade de diminuir rapidamente em consequência de uma evolução clínica favorável. Na covid-19 ela apresenta-se sutilmente elevada em comparação às infecções bacterianas. 

Muitas vezes ela se apresenta praticamente inalterada em casos leves e raramente ultrapassa os 100 mg/dL nos casos graves da doença. No entanto, pesquisas sugerem que ela esteja intimamente relacionada com as extensões das lesões pulmonares constatadas em exames de imagem. Desse modo, ela aparenta ser um marcador efetivo na investigação precoce de pneumonias.

A LDH, ou desidrogenase láctica é uma enzima presente em todas as células, mas em maior concentração nos pulmões, coração, músculo esquelético e fígado. Elevações de LDH ocorrem em virtude de lise celular por qualquer origem. Por isso, na Covid-19 não seria diferente. Estudos demonstraram que níveis altos de LDH em pacientes com a doença em curso levam a um aumento de até seis vezes nas chances de agravo da infecção e dezesseis vezes na probabilidade de morte.

Alterações de exames bioquímicos de função hepática também foram evidenciados em muitos estudos. Elevações de AST, ALT, gama GT e fosfatase alcalina demonstraram ser mais comuns em pacientes de UTI do que naqueles internados em enfermaria, e dessa forma, acredita-se que a alteração possa estar ligada com indução medicamentosa, além, das causas mais obvias, como em decorrência da tempestade de citocinas, hipóxia e infecção dos hepatócitos.

Outros estudos ainda não tão elucidados sugerem alterações em exames de avaliação de função renal, ProBNP, entre muitos outros metabólitos, o que não seria surpresa para ninguém ao considerar a verdadeira bagunça que esse microrganismo faz no nosso corpo, não é mesmo?!

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Referências:

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